Investimentos e tragédias

Crise fiscal legada pelo lulopetismo torna ainda mais difícil restaurar a capacidade de investimento do setor público

O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2018 | 03h00

Enchentes de proporções e consequências inéditas, pontes e viadutos que desabam ou ameaçam desabar, perda notória da qualidade dos serviços públicos na área da saúde, congestionamentos nos portos, rodovias mal conservadas e mal sinalizadas que fazem crescer o número de acidentes e de vítimas. Esses fatos, cada vez mais frequentes na vida dos brasileiros, são as consequências mais dramáticas e gritantes de uma grave deficiência da administração pública que só se agravou nos últimos anos, e para a qual a solução parece sempre distante: a falta de investimentos nas áreas que estão sob responsabilidade do poder público.

O Brasil sempre ocupou posição desconfortável em relação a outros países em desenvolvimento no que se refere a investimentos públicos em serviços essenciais para o bem-estar da população e para o apoio à atividade econômica. Neste século, sua posição piorou muito, como mostra estudo recém-concluído pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Numa lista de 42 países analisados, o Brasil é o penúltimo em investimentos. Mesmo países desenvolvidos, que já dispõem de serviços públicos de qualidade e de ampla cobertura, têm investido proporcionalmente mais que o Brasil. Pior ainda, como mostrou o comportamento criminoso de políticos e funcionários públicos ao longo das gestões lulopetistas, parte do pouco que se investiu foi desviada para bolsos privados, comprometendo ainda mais a qualidade e a extensão dos serviços públicos. A grave crise fiscal deixada por essas gestões no mínimo retardará, por um bom tempo, a recuperação da capacidade de investimentos do setor público.

O investimento está na base do desenvolvimento. Mas, nos últimos anos, houve uma evidente deterioração do estoque de capital público, como mostra o estudo Investimento Público – Comparações Internacionais, do economista Manoel Pires, coordenador do Observatório de Política Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas.

Na média dos países examinados pelo estudo, os investimentos públicos sempre estiveram acima de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) desses países. Em alguns anos, superaram 4%. Um dos exemplos mais expressivos e longevos da capacidade de investimentos públicos é o da Coreia do Sul. Nos anos 1980, a Coreia do Sul era considerada um dos tigres asiáticos, países ainda em desenvolvimento que apresentavam alto ritmo de crescimento, que os empurrava cada vez mais para cima na lista das nações mais bem-sucedidas do planeta. Mesmo tendo alcançado índices econômicos e sociais invejáveis, a Coreia do Sul continua a dispor de investimentos públicos anuais que superaram 5% do PIB, na média do período de 2000 a 2017.

Já o Brasil apresentou, nesse período, investimentos públicos equivalentes a 1,92% do PIB, maior apenas do que a média da Costa Rica, entre todos os países analisados. Economias desenvolvidas, como as do Reino Unido, Suíça, Dinamarca, Japão e França, investem proporcionalmente bem mais que o Brasil, o que as faz se distanciar ainda mais de nós.

Há outro aspecto preocupante na comparação dos investimentos públicos no Brasil com os dos demais países. A crise mundial iniciada em 2008 afetou a capacidade de investimentos de praticamente todos os governos. No Brasil, à crise mundial o governo petista, sobretudo depois da posse de Dilma Rousseff (em 2011), acrescentou uma descomunal incompetência que jogou a economia na recessão e fez os investimentos públicos caírem para 1,16% em 2017, o menor nível desde 1947, quando esse índice passou a ser calculado.

Da fatia cada vez menor do PIB que o setor público consegue destinar para investimentos, as gestões petistas trataram de desviar uma parte para enriquecer criminosamente partidos, políticos, funcionários e grupos empresariais.

A crise fiscal também legada pelo lulopetismo torna ainda mais difícil restaurar a capacidade de investimento do setor público. O que ele investe não basta nem para repor a depreciação do estoque de capital, diz a FGV. Isso cria oportunidade para novas tragédias.

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