Irresponsabilidade e fascismo ‘byke’

O fascismo caracteriza-se, à direita ou à esquerda, pelo trato autoritário. Nele não se discute realmente com os governados porque o povo é ludibriado pela propaganda, sofre ameaças e cooptação. Nas ditaduras brasileiras do século 20 o abuso legal foi seguido por torturas, exílios, perseguições econômicas ou sociais. O vezo de mandar sem questionamentos, no entanto, vai além dos regimes tirânicos que nos desgraçaram. Ele se apresenta em supostos democratas e progressistas da esquerda.

Roberto Romano*, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2015 | 05h00

O prefeito Fernando Haddad, se é possível colocá-lo à esquerda – pois não enrubesceu ao abraçar Salim Maluf –, exerce sua função como Oberkommando e não admite críticas ou queixas. Obstinado por ideias muito peculiares da vida coletiva, impõe aos contribuintes práticas desprovidas de plano técnico sério e que são, no limite, prejudiciais ao convívio da cidadania. Como vários colegas seus de partido, julga ser o único iluminado.

As delirantes faixas de ciclistas não impedem atos de indivíduos irresponsáveis. Eles recebem mesmo ajuda de setores relevantes da mídia, na tarefa de se proclamarem como os proprietários do espaço urbano. Agora foi deslanchada a corrida de leniência para com os donos das “bykes”. Tudo lhes é devido, eles nada precisam temer, nem mesmo ao atropelar pedestres. Todo paulistano sabe muito bem: apesar das faixas caras e pouco ortodoxas em termos orçamentários, o costume tornou imperativo o trânsito célere de bicicletas nas calçadas. O ciclista atropela um pedestre? Culpa do pedestre por não andar na rua, o seu lugar na mente tacanha e ignara.

Não falo por ouvir dizer e apresento um depoimento pessoal. Há coisa de três meses fui atropelado por uma jovem quando eu estava sobre a faixa de pedestres na Avenida Faria Lima, em frente ao Shopping Iguatemi. Fui jogado ao chão e ao pedir cautela à ciclista recebi um sinal obsceno à guisa de resposta. E lá se foi ela. Dias após, atrás da Igreja de São José, no Jardim Paulistano, outra jovem veio pela calçada e jogou a mim e à pessoa que estava comigo para fora do passeio. E seguiu o caminho na mais plena beatitude. Passadas algumas horas, no mesmo espaço, bando de ciclistas seguiu pela calçada jogando uma babá (e o carrinho da criança) para junto dos muros. Para coroar a cena dantesca, uma motocicleta passou em alta velocidade e quase atropelou a criança e uma idosa que trazia compras do supermercado próximo. E estava eu na semana passada em frente à minha casa, no mesmo bairro, e um ciclista exigiu passagem. Quando lhe disse que o lugar certo para a bicicleta era a rua, expeliu palavrões inomináveis e ameaças. Ao lhe indicar novamente a via certa, ele jogou sua bicicleta sobre mim e saiu correndo, bradando palavrões do pior calado. Na Rua dos Pinheiros, duas ciclistas correm pela calçada. Advertidas, soltam xingamento digno das mais emporcalhadas sarjetas.

Na Rebouças, sentido cidade-bairro, com a inclinação da calçada existe perigo iminente de atropelamentos. Sempre ali noto que bandos de ciclistas bem nutridos no corpo, o cérebro vazio, voam de bicicleta entre pedestres. Se advertidos, o resultado é sempre o mesmo: sinais obscenos e palavrões adequados ao cafajestismo, e não às vias públicas. O mesmo ocorre na Augusta, sentido cidade-bairro. Os ciclistas repetem o cacoete dos motoristas estacionados nas vagas de idosos e deficientes. Quem deles reclama é “chato”. Desafiam a lei, mas na sua mente só há corruptos em Brasília. Trata-se de imitar o pior na vida brasileira, a violência que ignora respeito aos demais cidadãos. Para eles, a calçada é sua, não dos pedestres, com as bênçãos de Haddad.

A Prefeitura, prestimosa em proteger tais grupos antiéticos, exige dos motoristas respeito aos usuários da bicicleta. Não existe aviso similar em favor dos pedestres. O prefeito associa-se aos que nas calçadas põem em risco quem também paga impostos. Nenhuma campanha educativa dos ciclistas em prol dos “cidadãos comuns” foi definida. É uma caçoada o dito, posto em alguns cartazes, sobre o convívio harmonioso entre motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Como sempre, os últimos são sacrificados porque, supostamente, nada rendem em termos políticos para a seita do prefeito. É clara a cumplicidade entre administração e violentos das calçadas. “Acidentes” ocorrem a cada instante, mas os olhos e ouvidos da administração se fecham. Lembro que “autoridade” vem de “ser autorizado” e nenhum pedestre autorizou a Prefeitura a incentivar práticas contrárias às mais comezinhas determinações da vida civilizada.

Com a onda de manifestações violentas contra políticos petistas, minha atitude foi sempre no sentido de condenar os que, em restaurantes e hospitais, invectivam os partidários do atual governo. O que digo comprovo na imprensa. Um trecho: “A hostilização não é democrática, não é republicana e não é civilizada. Tal atitude é muito própria de pessoas que não têm vivência na esfera pública. Pior: esse ‘carisma incivil’ ganhou corpo pela prática irresponsável e calhorda das redes sociais. Em nome de uma ideologia, vilipendia-se a existência e a dignidade do outro” – bbc.com/portuguese/noticias/2015/05/150525_salasocial_politicos_hostilizados_lgb (BBCBrasil).

Mas o prefeito sempre responde, no mesmo nível dos ciclistas arrogantes e opostos à lei, com sarcasmos patéticos aos reclamos dos prejudicados e se coloca, portanto, no mesmo nível dos que mandam seu partido e seu governo para “aquele lugar”. Autoritário e sem o sentido da accountability, ele segue feliz com seus companheiros do fascismo ciclista. Se não for assassinado por uma bicicleta, que em São Paulo tem licença e aplauso oficial para matar, verei contente a Prefeitura paulistana ser liberta de uma tirania ridícula. Afinal os ciclistas serão postos no seu lugar, fora das calçadas. E os pedestres a elas retornarão em segurança. Bem-vindo, 2106!

*Professor da Unicamp, é autor de 'Razão de Estado e Outros Estados da Razão' (Perspectiva)

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