Japão e Brasil - um ano após o sismo

Um ano se passou desde o Grande Terremoto do Leste do Japão, ocorrido em 11 de março de 2011, quando um tremor de magnitude 9, seguido de gigantesco tsunami, causou enormes danos, ceifando a vida de cerca de 20 mil pessoas.

Akira Miwa, O Estado de S.Paulo

10 Março 2012 | 03h04

Por ocasião desta data, gostaria de expressar meus sinceros agradecimentos pelo grande apoio da comunidade internacional e, em especial, pelas calorosas manifestações de solidariedade e pelas contribuições do governo e do povo do Brasil. Astros do futebol brasileiro que atuaram no Japão, como Zico e Alcindo, promoveram um jogo amistoso com a finalidade de angariar fundos em prol das vítimas do desastre. E o rei Pelé visitou as cidades afetadas para encorajar as crianças e os refugiados nos abrigos. Além da mensagem de solidariedade da presidenta Dilma Rousseff, o chanceler Antonio Patriota visitou o Japão em abril para apresentar as condolências oficiais do Brasil às vítimas. Em Pernambuco, crianças das favelas de Olinda recolheram moedinhas em latas para entregá-las ao Japão, explicando: "É porque o Japão, que é amigo do Brasil, está sofrendo". Esse episódio foi relatado pelo primeiro-ministro Yoshihiko Noda em seu discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro.

Atualmente, a infraestrutura e a economia das regiões afetadas estão em franca recuperação. A maioria das empresas japonesas está se reerguendo rapidamente e a cadeia de fornecedores do sistema produtivo foi completamente restabelecida.

Com os reatores da usina nuclear de Fukushima em condição equivalente ao estado de desligamento frio, o acidente foi considerado controlado, conforme anunciado em dezembro. Ainda nos resta, contudo, o grande desafio da recuperação do meio ambiente e das condições de vida das áreas afetadas. Nesse sentido, o Japão não poupará esforços para prosseguir com a descontaminação das zonas afetadas, assegurando, assim, as condições sanitárias e restabelecendo a segurança alimentar, bem como para indenizar as vítimas. O Japão tem a responsabilidade de compartilhar com a comunidade internacional as experiências e as lições aprendidas com o acidente e seguir contribuindo para o aperfeiçoamento da segurança nuclear. Em dezembro deste ano o Japão organizará, com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), uma conferência internacional de alto nível sobre segurança nuclear.

As relações e os laços de amizade do Japão com o Brasil remontam a mais de cem anos de uma história baseada na confiança estabelecida pela imigração japonesa. As relações econômicas bilaterais também têm uma longa história de cooperação, passando pelos grandes projetos nacionais dos anos 60 e 70 do século passado, abrangendo as áreas da siderurgia, do alumínio, da celulose e da agricultura.

Em tempos recentes, a cooperação bilateral tem-se incrementado, envolvendo setores de alta tecnologia e conhecimento. O melhor exemplo disso é a adoção pelo Brasil do padrão nipo-brasileiro de TV digital e a consequente disseminação desse padrão por quase todos os países da América do Sul. É o Japão contribuindo para a integração econômica da região, o que é motivo de grande orgulho. Na área ambiental, merece destaque a cooperação bilateral com o emprego do satélite japonês Alos, que foi de suma relevância para a redução dos índices de desmatamento ilegal na Amazônia, já que era portador de um radar que permitia até "ver embaixo das nuvens". Além disso, não se pode olvidar que o Brasil, detentor de bem-sucedida experiência no desenvolvimento do Cerrado, também trabalha em colaboração com o Japão em projetos de cooperação trilateral para o desenvolvimento agrícola na África. Deve, ainda, salientar que o Japão e o Brasil já são parceiros na busca de soluções para os grandes desafios globais, como a questão das mudanças climáticas e a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, entre outros.

Há ainda, todavia, muito a ser feito. Com a pujança econômica do Brasil, que se elevou à condição de sexta economia do mundo, muitas oportunidades estão surgindo para o relacionamento bilateral. Para atender ao mercado brasileiro, em rápida ascensão, empresas japonesas, como a Toyota e a Nissan, estão se preparando para abrir novas fábricas no Brasil e muitos líderes empresariais japoneses estão visitando o País. Nota-se, também, um aumento do número de empresas japonesas que fabricam no Brasil e exportam para outros países. Na área de infraestrutura dos transportes, são promissoras as possibilidades em torno de projetos de trens, metrôs e monotrilhos. No campo energético, o Brasil descobriu recentemente significativas jazidas de petróleo e gás natural na camada pré-sal, além de ter enorme potencial em energia solar e eólica. Visando essas oportunidades, os governos do Japão e do Brasil já estão tomando medidas concretas com a finalidade de melhorar o ambiente de negócios e as condições dos trabalhadores de ambos os países, como a conclusão do Acordo de Previdência Social, que entrou em vigor em 1.º de março, e a decisão de facilitar a emissão de vistos com múltiplas entradas para homens de negócios, em vigor desde janeiro deste ano.

Acredito que para manter, fortalecer e buscar resultados nessas cooperações seja imprescindível a formação de recursos humanos na área de ciência e tecnologia. Assim sendo, o Japão está-se preparando para poder receber estudantes e pesquisadores brasileiros por meio de programas como o Ciência sem Fronteiras, promovido pelo governo brasileiro.

Em nome de todo o povo japonês, gostaria de reiterar o meu agradecimento pelo apoio do Brasil quando do Grande Terremoto, com a convicção de que o Japão saberá superar mais essa adversidade e vai fortalecer ainda mais a amizade com o Brasil.  

EMBAIXADOR DO JAPÃO NO BRASIL

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