Japão tenta sustentar o dólar

No dia seguinte à vitória do primeiro-ministro Naoto Kan na disputa pela liderança do Partido Democrático do Japão, que lhe assegurou a permanência no cargo que ocupa há apenas três meses, o governo japonês finalmente começou a agir com vigor para tentar estimular a economia de maneira mais efetiva. Na quarta-feira, interveio no mercado de câmbio pela primeira vez em mais de seis anos para evitar a persistente queda do dólar, que tem prejudicado as exportações do país e impedido a reativação da atividade econômica.

, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2010 | 00h00

Na véspera da intervenção - quando se confirmou a vitória de Kan sobre Ichiro Ozawa, por 721 votos contra 491, na disputa pelo cargo de líder do partido, que, por ser majoritário no Parlamento, tem o direito de indicar seu líder para o cargo de primeiro-ministro -, a moeda americana tinha sido negociada abaixo de 83 ienes, sua menor cotação em 15 anos.

A baixa excepcional do dólar tornou agudo um problema que preocupava o governo Kan e o Banco Central (BC) do país há bastante tempo. No mês passado, Kan e o presidente do BC, Masaaki Shirakawa, haviam discutido o problema. Pela legislação japonesa, o Banco Central não pode intervir diretamente no mercado de câmbio, comprando ou vendendo moeda estrangeira, para influir na sua cotação. Por isso, depois do encontro de Kan e Shirakawa, o Banco Central adotou medidas de política monetária que poderiam estimular a compra de dólar e, assim, elevar sua cotação. Na ocasião, Kan considerou as decisões "um meio eficaz de lutar contra as dificuldades econômicas atuais".

No entanto, as medidas frustraram os investidores, que esperavam decisões mais agressivas, como a redução da taxa básica de juros, que já é baixíssima, de 0,1% ao ano, para zero. E o dólar continuou a cair.

Com seu poder de decisão prejudicado pela disputa partidária, Kan não podia agir contra o processo contínuo de valorização do iene. Confirmada sua vitória, decidiu agir.

Não foram divulgados os valores das operações realizadas pelo Ministério das Finanças, ao qual compete intervir no mercado de câmbio para defender o dólar, mas se estima que, só nos primeiros minutos da intervenção, as compras tenham movimentado de 200 bilhões a 300 bilhões de ienes (de US$ 2,4 bilhões a US$ 3,6 bilhões). Com a extensão das operações de venda de ienes para outros mercados, o total pode ter chegado a 1 trilhão de ienes, ou US$ 11,7 bilhões. O resultado foi imediato. Da mínima de 82,87 ienes na terça-feira, o dólar alcançou 85,14 ienes no dia seguinte. Resta saber se se trata de uma inversão de tendências. Há muitas dúvidas.

Não é apenas em relação ao iene que o dólar está enfraquecido. Nos últimos dias, o dólar perdeu força diante de 15 das 16 moedas com as quais é mais negociado. A principal razão desse enfraquecimento da moeda americana está nos Estados Unidos, onde a recuperação econômica é mais lenta do que se esperava e, por isso, o Federal Reserve, o BC americano, tem tomado medidas de alívio monetário, o que desestimula aplicações em títulos do Tesouro dos EUA e em dólar, que, por isso, continua a cair.

Em resumo, o dólar está fraco porque a economia americana está igualmente enfraquecida - e, contra isso, o governo japonês e outros governos e bancos centrais nada podem fazer.

Sem meios eficazes e de efeitos duradouros para evitar a excessiva valorização do iene, que prejudica as exportações, facilita as importações e torna mais difícil romper o ciclo de estagnação da economia japonesa, o governo Naoto Kan tem muitos outros problemas para enfrentar no curto prazo.

A estagnação faz crescer o desemprego. Do lado fiscal, o governo terá de cortar gastos e aumentar impostos - duas medidas impopulares - para conter a dívida pública, que é quase o dobro do PIB, que já não é o segundo maior do mundo, pois foi superado pelo da China.

Não é de estranhar que, nos últimos 20 anos, a chefia do governo japonês tenha sido ocupada por 14 pessoas. E Kan, que acaba de salvar seu cargo, é o quinto primeiro-ministro em três anos.

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