José Mindlin, 1914-2010

Uma Vida entre Livros é o título da obra de cunho autobiográfico de José Mindlin. O título é revelador da importância que, nos seus reencontros com o tempo, atribuiu aos livros, ao parar para pensar o significado de sua vida. Esta, cabe apontar, caracterizou-se por atividades diversificadas.

Celso Lafer, O Estadao de S.Paulo

21 Março 2010 | 00h00

Mindlin foi jornalista e exerceu a advocacia. Teve uma vida empresarial importante e destacou-se, seja no âmbito da Metal Leve, seja no das responsabilidades no âmbito da Fiesp, pelo pioneirismo de atribuir, numa época de economia fechada, importância à exportação de produtos manufaturados e de realçar a relevância, em parceria com a universidade, da pesquisa como ingrediente crítico da competitividade empresarial. No trato da governança corporativa, deu ênfase à responsabilidade social e cultural da empresa. Foi um incentivador e catalisador de um sem-número de iniciativas culturais. Acabou sendo, por essas razões todas, uma ponte entre o mundo corporativo, o da ciência e o da cultura, inclusive no período da sua curta, mas importante gestão como secretário de Ciência, Tecnologia e Cultura do Estado de São Paulo. Empenhou-se, na época do regime autoritário, na redemocratização do nosso país. Por todos esses motivos, exerceu uma função de figura pública de referência que alcançou ressonância nacional por obra da inteireza de seu caráter, sempre preocupado com o futuro do Brasil.

Deu, no entanto, destaque, na sua autobiografia e em outros textos, aos livros e às leituras. Com efeito, nos seus reencontros com o tempo não se deteve no muito que fez. Buscou articular o fio condutor de quem foi. São temas recorrentes das narrativas do seu percurso: a garimpagem do bibliófilo em busca de livros raros e belos; o prazer da amizade com escritores; o fascínio pela palavra, explicativa do seu interesse pelos manuscritos de romances e poesias, que testemunham o processo de criação; o gosto pela feitura de edições de qualidade, que dão corpo próprio à obra de arte. Em síntese, viveu para contar (evocando o título da autobiografia de Gabriel García Márquez) o que, para ele, representou o recado dos livros.

Um dos recados mais importantes foi o de transmitir, na qualidade da sua conversa e na apurada simplicidade dos seus escritos, a partir da perspectiva de leitor, a importância da literatura e do que ela, no pluralismo de suas vertentes, significa como fator de humanização e compreensão da complexidade. Proust e Balzac, como escreveu, dão uma boa ideia da sociedade e da natureza humana. Para ele o livro, sem o qual não podia imaginar a sua vida, era tão íntimo quanto as suas mãos e os seus olhos. Foi, assim, um homem de letras. Por isso apreciava o convívio na Academia Brasileira de Letras, que o acolheu, elegendo-o em 2006 para a cadeira n.º 29. Teve entre os seus antecessores Vicente de Carvalho, cujo Pequenino Morto gostava não só de recitar em voz alta, mas também de mostrar no manuscrito original, que possuía e está reproduzido em Uma Vida entre Livros. Foi um presente de dona Maria Rangel Pestana e pertencera a Nestor Rangel Pestana, com o qual o jovem Mindlin, no período em que trabalhou em O Estado de S. Paulo, aprendeu a exercitar a clareza e a elegante precisão que caracterizavam os seus textos.

O lema do seu ex-líbris, "Je ne fay rien sans gayeté" ("não faço coisa alguma sem alegria") foi extraído do ensaio de Montaigne sobre os livros, no qual trata de autores e de leituras. O ex-líbris explicita as suas afinidades com essa grande figura do humanismo europeu.

No capítulo 68 de Dom Casmurro, Machado de Assis, de quem Mindlin foi leitor devoto, evoca Montaigne para dizer que seu personagem não escrevia sobre os seus gestos, mas sobre a sua essência. Nessa linha, Mindlin, à semelhança de Montaigne, teve como traços reveladores do seu modo de ser: a diversidade e a variedade de interesses, e por isso, como disse, a sua biblioteca era indisciplinada; a percepção do jogo e do papel dos acasos, que explicam a multiplicidade de atividades do que, na sua vida, empreendeu; a latitude da liberdade de apreciação; a crítica aos excessos, lastreada num otimismo temperado pelo senso de realidade; a importância atribuída à amizade; a busca do sentido das coisas com base na experiência do contato com as pessoas e no procedimento aditivo e cumulativo da leitura; a abertura para a complexidade do mundo.

Um dos conhecidos ensaios de Montaigne é o intitulado Dos Canibais. Nele relata a experiência de sua conversa em Rouen com um dos três índios tupinambás que foram recebidos pelo rei Carlos IX, em 1592. A conversa, intermediada por um tradutor, deu margem para Montaigne discutir a precariedade da dicotomia civilização-barbárie, ao refletir sobre os índios brasileiros com os quais os franceses travaram contato após a expedição de Villegaignon.

No ensaio fala da "considerável importância" da "descoberta de um país infinito". Assim também Montaigne pode ser visto como instigador respaldo para a constituição da notável Brasiliana que Mindlin foi reunindo no correr dos anos, com grande conhecimento do nosso país e não menor empenho no seu destino e na sua cultura. Ele a doou à USP, com o alto sentido de serviço público de quem se considerava não possuidor, mas guardião de livros, e dava afetuosa importância ao vínculo de antigo aluno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a histórica primeira unidade da Universidade de São Paulo.

Montaigne era um humanista e empregou o vocábulo com frequência na sua obra. Propôs, examinou e discutiu ideias humanas, atento ao pluralismo da nossa condição. Foi o que José Mindlin fez e levou adiante na sua vida, com generosidade, disponibilidade para ajudar e estimular, grande abertura para com os moços e a sempre cativante simpatia do seu dom no trato das pessoas.

PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES NO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

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