Jovens, protagonistas de mudanças

A Igreja Católica tem a convicção de que ainda tem muito a dizer e a comunicar a eles

DOM ODILO P. SCHERER*, O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2018 | 03h00

Realiza-se no Vaticano, de 3 a 27 de outubro, a 15.ª assembleia-geral ordinária do Sínodo dos Bispos, convocada e presidida pelo papa Francisco. O Sínodo é um organismo representativo do episcopado católico do mundo inteiro, cuja missão é colaborar com o papa no governo da Igreja, podendo ser chamado a se pronunciar sobre uma série de assuntos que interessam à vida da Igreja e à sua missão.

Desta vez, os jovens são o tema de trabalho dos cerca de 280 bispos, alguns peritos e conselheiros, e um bom número de jovens convidados. Nas numerosas sessões da assembleia, o papa Francisco fala pouco e ouve muito. Cabe aos membros da assembleia apresentar as questões e reflexões e, no fim de três semanas de intenso trabalho, apresentar ao papa o fruto desse trabalho em forma de propostas e sugestões para a ação. O papa publica, então, uma exortação apostólica sobre o tema.

Entre os participantes da assembleia há sete brasileiros, um deles é o cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O papa convidou-o para ser o relator geral da assembleia sinodal. 

O tema Juventude, fé e discernimento vocacional foi amplamente preparado, com consultas às conferências episcopais de todo o mundo, para se ter um quadro da realidade juvenil nos vários países e ambientes culturais, nos aspectos que mais dizem respeito aos jovens: educação, saúde, trabalho, religião e inserção na sociedade local.

Constatou-se que há no mundo cerca de 1,8 bilhão de jovens entre 16 e 29 anos de idade, cifra que apresenta tendências de diminuição para as próximas décadas.

Também os jovens tiveram a oportunidade de se manifestar sobre o tema, por meio de uma consulta eletrônica que envolveu, sobretudo, organizações juvenis ligadas à Igreja Católica em todo o mundo. "Queremos ouvir os jovens", recomendou o papa Francisco aos organizadores da assembleia.

O processo de consulta evidenciou o enorme potencial que os jovens representam para a humanidade, suas esperanças e seus anseios. Mas também emergiram os medos, as preocupações e ansiedades dos jovens diante do futuro, especialmente em relação às questões políticas, sociais e econômicas, que causam incerteza, insegurança e angústia, podendo ser causa de violência ou de adesão, por parte dos jovens, a esquemas destrutivos de sua existência, como os vícios e dependências químicas, o crime organizado e a corrupção.

Em muitos países, a pobreza, a deficiência das políticas educacionais, as guerras e vários tipos de discriminação empurram numerosos jovens para os caminhos das migrações, nem sempre fáceis e bem-sucedidos. A globalização, ao mesmo tempo que trouxe muitas possibilidades novas de exercício da liberdade, de informação e partilha para os jovens, deixou muitos deles desenraizados em relação à própria identidade cultural e aos valores ligados aos seus povos.

Tantos foram os questionamentos suscitados já na consulta às conferências episcopais quanto ao impacto da globalização e das mídias sociais sobre as novas gerações... Uma das preocupações do trabalho da Igreja é ajudar os jovens a enfrentarem os impactos das grandes mudanças culturais em curso, sem que eles percam o contato com a sua identidade cultural e com os valores a ela inerentes, como a solidariedade, os laços comunitários e de espiritualidade. O risco do individualismo fechado ronda os jovens desta época, assim como o consumismo, o relativismo e o materialismo, levando-os a um empobrecimento cultural e à perda do sentido da vida. A aceleração das mudanças culturais traz em si o risco de aprofundar a ruptura entre as gerações e o esvaziamento das relações humanas, favorecido pela dependência, quase tóxica, das tecnologias de comunicação virtual.

Como prevenir que os processos dinâmicos das mudanças culturais trazidas pela nova cultura tecnológica e midiática acabem desencadeando um processo de decadência dos costumes, em vez de serem uma oportunidade para aprimorá-los? Como ajudar os jovens para que, sendo habitantes da aldeia global da internet, não percam o senso da concretude das relações humanas pessoais e da sua inserção na comunidade concreta em que vivem?

Não é diferente o que acontece com os jovens no contexto religioso, quer cristão e católico, quer de outras expressões religiosas. Nos contextos culturais mais marcados pela globalização, os jovens perderam, em boa parte, o contato com a religião dos pais e do seu ambiente cultural. Em sociedades menos atingidas pela globalização ainda persiste um forte liame entre os jovens e a religião. No entanto, o jovem não deixa de se colocar a questão da fé, da religião e do sentido da vida. No atual contexto de mudanças aceleradas da cultura e dos costumes, como ajudar o jovem a situar-se no conjunto variável de propostas religiosas, ou até indiferentes e contrárias à religião?

Ao convocar a assembleia geral do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, o papa Francisco teve uma intuição que vai bem além do horizonte puramente religioso e confessional. É a pessoa do jovem que está em questão, bem como o futuro não muito distante da humanidade, de suas organizações e expressões de humanidade, das quais os próprios jovens são e devem ser os principais protagonistas. Nesse sentido deve ser entendida a referência ao "discernimento vocacional": trata-se de refletir sobre a maneira de valorizar a existência individual de cada jovem.

O sínodo "dos jovens" chama em causa, antes de tudo, a própria Igreja Católica, para uma reflexão atenta sobre suas relações com a juventude. A contribuição da Igreja e de suas organizações para a formação dos jovens e sua preparação para a vida adulta sempre foi importante ao longo dos séculos. E ela tem a convicção de que ainda hoje, e no futuro, tem muito a dizer e a comunicar a eles.

*CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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