Juros contra a inflação na Europa

Está aberta a nova temporada de alta de juros nas economias mais avançadas, depois de três anos de taxas muito baixas e dinheiro farto. O Banco Central Europeu (BCE) saiu na frente, nessa quinta-feira, e elevou de 1% para 1,25% os juros básicos na zona do euro, um dia depois de o governo português anunciar a intenção de pedir ajuda para enfrentar sua crise fiscal. China, Índia, Polônia e Suécia já elevaram o custo do dinheiro, tentando moderar o crescimento econômico e controlar as pressões inflacionárias. No mundo rico, a maior parte dos bancos centrais ainda prefere manter o dinheiro barato e inundar o mercado de moeda.

, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

O Federal Reserve (Fed), dos Estados Unidos, conserva os juros entre zero e 0,25%. Também na quinta-feira os bancos centrais da Inglaterra e do Japão confirmaram a manutenção dos juros em 0,5% e 0,1%, respectivamente. No caso do Japão, a série de desastres iniciada com o terremoto seguido de tsunami, no mês passado, é uma óbvia justificativa.

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, vinha há meses mostrando preocupação com as pressões inflacionárias e indicando a possibilidade de um aperto monetário num prazo não muito longo. A economia europeia voltou a crescer, mas muito lentamente. O banco estima para a zona do euro uma expansão econômica de 1,7% neste ano e 1,8% no próximo, mas essas médias são infladas pelo desempenho alemão, muito melhor que o da maior parte dos outros países. Além disso, vários membros da união monetária enfrentam dificuldades financeiras muito graves e dependem de ajuda para rolar a dívida pública. Principalmente por isso a nova elevação de juros, a primeira desde julho de 2008, foi de certo modo surpreendente.

Grécia, Irlanda, Portugal e talvez até a Espanha "precisam de um aumento da taxa tanto quanto alguém precisa de um buraco na cabeça", disse em Londres uma especialista em finanças, Vicky Price, resumindo a opinião de muitos economistas. Mas os dirigentes do BCE sabem disso, é claro, e seu presidente afirmou ter aconselhado Portugal a pedir ajuda. Mas o risco da inflação pesou mais na balança, quando se tratou de resolver se a política monetária seria alterada.

O BCE admite uma inflação anual de até 2%. A alta de preços bateu nesse limite no fim de 2010 e chegou a 2,6% em março - a taxa mais alta desde a crise. As autoridades monetárias mostram-se preocupadas não só com o ritmo de elevação dos preços, puxado principalmente pelo custo da energia e pelas cotações dos alimentos. Um de seus objetivos é conter o risco de propagação e de realimentação dos aumentos. A inflação ganhará um impulso importante se os salários forem ajustados para compensar a elevação do custo de vida. Essa hipótese torna-se mais provável com a reativação econômica dos países mais dinâmicos.

Apesar do aumento, os juros básicos da zona do euro permanecem moderados. Segundo Trichet, os dirigentes do BCE ainda não decidiram se a elevação recém-anunciada será a primeira de uma série. Mas não descartou essa possibilidade e, segundo analistas do setor financeiro, os juros poderão chegar a 1,7% até o fim do ano. Isso poderá complicar a situação dos governos com maiores problemas de financiamento.

Altos funcionários do Fed já mencionaram a possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos. Segundo um deles, isso poderá ocorrer mais cedo do que se pensa nos mercados. Mas a ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, responsável pela política americana de juros, aponta para outra direção. Ainda é arriscado apostar num aperto monetário nos Estados Unidos. Ao contrário: além de manter os juros próximos de zero, o Fed continua comprando títulos federais em circulação no mercado. Para isso, emite bilhões de dólares e boa parte desse dinheiro acaba inundando os mercados de economias mais prósperas e com juros mais altos, como a brasileira. Resta ver quanto tempo os dirigentes do Fed manterão a frieza diante das pressões inflacionárias, transmitidas principalmente pelo custo da energia. Se não se mexerem, poderão ter dificuldade, mais tarde, para consertar os estragos.

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