Laranja azeda

Um pesadelo atormenta o campo. Existem 80 milhões de caixas de laranjas maduras, começando a cair do pé, apodrecendo no chão. As arrogantes empresas de suco, conluiadas entre si, lavam as mãos. Destrói-se imenso patrimônio do interior paulista.

Xico Graziano, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2012 | 03h06

Esse cenário negativo da citricultura se desenha há tempos. Uma das explicações, a mais comum, reside no fraco consumo mundial de suco de laranja. É verdade. Desde 2003 houve uma queda de 5,3% na demanda dos países desenvolvidos, redução que atingiu 25% nos Estados Unidos. A perda no mercado global somente não foi maior porque se compensou, em parte, com o crescimento verificado nos países emergentes, como México e China.

Afeta diretamente o Brasil essa retração do mercado internacional. São Paulo, responsável pela produção de metade do suco concentrado de laranja no mundo, garante 85% das exportações totais. De cada cinco copos de laranjada bebidos no planeta, três se originam nos pomares brasileiros.

Tem sido fatal contra o suco de laranja a concorrência dos refrigerantes, outros sucos diversos e bebidas industrializadas. Facilitado pelas novas tecnologias de preparo e conservação, o marketing dos sabores alternativos anda desbancando a fruta cítrica na preferência dos consumidores. Antes, aquela caixinha amarela imperava nos mercados norte-americano e europeu. Agora, perde sua fama para os rivais.

No Brasil, tendência semelhante se percebe, embora o gosto recaia sobre o suco de laranja natural, espremido na hora. As prateleiras dos supermercados seduzem as donas de casa com atraentes embalagens de bebidas prontas para o consumo, todas deliciosas, com néctar de maçã, pêssego, maracujá, morango, manga, puro ou misturado com leite de soja, com iogurte, chás e outros líquidos, integral ou light. Muitas novidades no copo.

Um fato recente, jamais totalmente explicado, azedou mais ainda a economia citrícola. No final do ano passado os Estados Unidos suspenderam as compras do suco de laranja brasileiro, argumentando terem nele encontrado resíduos de carbendazim, um fungicida banido por lá em 2009. Acontece que o mesmo agrotóxico continua sendo utilizado nos pomares brasileiros, tanto quanto nos europeus, em razão de sua eficácia e segurança no controle das doenças cítricas, especialmente aquelas aqui vulgarmente conhecidas como "pinta-preta e "estrelinha".

Pois bem, os níveis detectados da substância, de 30 partes por bilhão (ppb), eram irrisórios ante as tolerâncias admitidas até mesmo nos mercados exigentes do Japão (3.000 ppb), do Canadá (1.000 ppb) ou da União Europeia (200 ppb), incapazes, portanto, de causar qualquer dano à saúde pública. Mesmo assim os norte-americanos foram superrigorosos: simplesmente fecharam o mercado ao suco de laranja concentrado brasileiro. Tolerância zero.

Resultado: a indústria acumulou um estoque de 600 mil toneladas de suco, suficiente para segurar as vendas externas por meses. Assim, abastecidas em plena safra de laranja, e financiadas pelo governo, as empresas deixaram de comprar a matéria-prima, levando ao desespero os citricultores. Pior para aqueles que mantêm pomares de variedades precoces, como a hamlin, que se perderá quase totalmente na derriça ao solo. Malvadeza capitalista.

É antigo, e só cresce, o atrito na cadeia produtiva da laranja. As empresas têm sido acusadas de cartelização há quase duas décadas, desde quando ainda várias unidades disputavam o mercado. Hoje a concentração as reduziu a três maiorais: a Cutrale, a Dreyfus e a Votorantim/Fisher. O oligopsônio, em economês, despreza o citricultor, aniquila seu negócio.

Naquela época de ouro em que o município de Bebedouro (SP), a capital da laranja, virou tema de novela, contavam-se 20 mil produtores da fruta. Segundo os números da Associtrus, aguerrida entidade do setor, restam menos da metade. Laranjais cederam espaço aos canaviais. E o arranquio observado nestes dias indica que minguarão mais ainda os pomares.

Parece ser exatamente esse o desejo da indústria de suco. Há tempos as empresas e seus mancomunados, em movimento contrário ao dos pequenos citricultores, expandem fortemente as plantações de laranja. Seus imensos pomares colocaram uma pulga, ou uma navalha, atrás da orelha dos citricultores. Estes desconfiam, inclusive, de má-fé naquele caso norte-americano do fungicida, pois poderiam ter sido informados com antecedência sobre a questão. Apanhados de surpresa, eles se ferraram.

Existe, como se percebe, um problema estrutural afetando a citricultura. E as autoridades? Lenientes, jamais tomaram providência alguma para frear a concentração do poder econômico. Ao contrário, o BNDES a estimula com empréstimos subsidiados. Dilapidam-se milhares de empregos sob a guarda da inércia política.

Os governos, prevenindo a situação, poderiam, no mínimo, organizar campanhas de consumo popular da fruta, ajudando o escoamento da safra nas portas do metrô, na merenda escolar, nos presídios, nos bairros. Talvez não resolvesse, mas certamente ajudaria os fruticultores. Poderia até, talvez, assustar o vírus da gripe neste inverno. Vai saber...

Não tem sido fácil a vida dos citricultores. Terríveis doenças atacam os pomares qual flagelos bíblicos. Primeiro, há quase 80 anos, chegou a fatídica tristeza dos citros, depois veio a desgraça do cancro bacteriano. Mais recentemente foi a vez do amarelinho, seguido da clorose variegada e, por fim, o mal súbito das plantações. Deus nos ajude, reza o agricultor.

A maior praga, porém, mora nos esconderijos do poder. Ali nasce, na política, o mensalão; na citricultura, a desolação. Frutos amargos da prepotência humana.

  *   AGRÔNOMO, FOI SECRETÁRIO DE AGRICULTURA E SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: XICOGRAZIANO@TERRA.COM.BR

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