Lenta, gradual, insegura

Ou o governo é capaz de acelerar o crescimento econômico ou uma crise política será inevitável

Luís Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 05h00

Deixamos para trás o pior da recessão, mas a falta de emprego ainda é um flagelo. Relatório do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostra um aumento de 530 mil postos de trabalho no mercado formal no ano passado. É o melhor resultado desde 2013, mas está longe de repor as vagas que foram cortadas no período de contração do nível de atividade. De 2015 a 2017, cerca de 48 milhões de trabalhadores foram demitidos, ante pouco mais de 45 milhões de vagas abertas. Uma tragédia social que ajuda a entender a resposta que os eleitores deram nas urnas em 2018. No ritmo de crescimento do ano passado, o nível de emprego de 2014 voltará a ser alcançado apenas em meados de 2023.

O estrago não poupou nenhuma das atividades. Mesmo a agropecuária, que tem outra dinâmica e escapou da recessão, também eliminou 30 mil postos desde 2014. Mais dramático é o caso da construção civil. Atingida pela combinação entre Operação Lava Jato e queda dos investimentos, o PIB deste setor recuou 30% entre setembro de 2013 e setembro de 2018. O resultado em termos de emprego foi devastador: mais de 1 milhão de vagas eliminadas.

A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio, com metodologia diferente do relatório do Caged, mostra um quadro ainda mais precário. Fechamos 2018 com 12,2 milhões de desocupados, apenas 0,9% menos que no final de 2017 e 89% mais que em dezembro de 2014. No ano passado, a melhoria se concentrou nos trabalhadores sem carteira assinada e pessoas ocupadas por conta própria. É bom lembrar que os empregos sem carteira assinada têm uma remuneração 40% inferior ao que se paga no mercado formal. Em termos reais, o rendimento médio habitualmente recebido para todos os trabalhos aumentou menos que 1% em 2018. O contingente de pessoas subutilizadas aumentou 3,4% em relação a 2017. O salário e o emprego estão se recuperando a um ritmo menor que o aumento da produção medida pelo PIB.

O mercado financeiro está otimista para 2019 e espera um crescimento do PIB de 2,5%. Em janeiro do ano passado, o mesmo mercado previa um aumento de 2,6% para 2018, algo como o dobro do que o produto deve ter realmente crescido. Mas digamos que desta vez a previsão otimista esteja correta. Ainda assim, não há razão para esperar uma forte recuperação do emprego e da renda, não só porque o crescimento será ainda baixo, mas também por causa do inexorável avanço da automação, que continua a eliminar empregos.

É preciso acelerar o crescimento para reverter este quadro, o que exige uma sequência de ações concatenadas. Antes de mais nada, o governo deve deixar em segundo plano a pauta ideológica na qual se enredou e se concentrar nas reformas econômicas que podem destravar a economia. Isso exige escolha de prioridades e capacidade de negociação política. Não se sabe da primeira e a segunda é duvidosa. É preciso conciliar para ampliar o leque de apoio. Não será com seus admiradores de extrema direita, uma minoria até entre seus eleitores, que o presidente conseguirá aprovar as medidas impopulares que são requeridas. Se o mercado perceber que a reforma da Previdência é factível e suficientemente ambiciosa, poderemos ver uma nova rodada de apreciação do real. Esta será a senha para o Banco Central cortar mais os juros. Para acelerar a retomada, vale a pena ainda reduzir os depósitos compulsórios dos bancos, o que pode ativar o consumo, tirando proveito do fato de que a inflação está largada. Há milhões de desempregados que votaram em Bolsonaro e não querem ter uma arma em casa nem se importam com o “globalismo” ou o “marxismo cultural” nas universidades. Eles querem um emprego. Ou o governo é capaz de acelerar o crescimento ou uma crise política será inevitável.

ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL DO BRASIL E PROFESSOR DA PUC-SP E DA FGV-SP

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