Liberdade com tolerância

Na abertura do seminário Comunicação e Mercado no Brasil: Desafios e Oportunidades, promovido pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), no Rio, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia disse que há no Brasil "uma intolerância enorme para tudo o que seja diferente" e que "não adianta querer ser livre e abrir mão de pensar". Para professores e alunos da instituição a ministra parodiou o que Millôr Fernandes usava como título de uma seção de sua coluna: "Livre pensar é só pensar". Ela disse: "Temos um Estado Democrático, mas a pergunta é se temos uma sociedade tão democrática quanto a Constituição pressupõe. Hoje noto uma intolerância enorme para tudo que seja diferente, é uma tragédia para a democracia e o exercício da liberdade".

O Estado de S.Paulo

04 Maio 2014 | 02h06

O tema da intolerância está em destaque no noticiário esportivo, por causa de manifestações de racismo em gramados de futebol e quadras de basquetebol. Recentemente, o craque negro Tinga, do Cruzeiro de Belo Horizonte, foi insultado ao substituir um companheiro num jogo contra o Real Garcilaso, no interior do Peru. O árbitro gaúcho Márcio Chagas da Silva, mulato, encontrou o automóvel depredado e com bananas sobre o capô depois de ter apitado uma partida em Bento Gonçalves entre o time local Esportivo e o Veranópolis pelo campeonato estadual do Rio Grande do Sul. E não se trata de um fenômeno sul-americano ou brasileiro. O torcedor do Villarreal que atirou uma banana no lateral-direito da seleção brasileira, Daniel Alves, que joga no Barcelona, foi identificado e será indiciado pela polícia por haver infringido uma lei espanhola. Donald Sterling, dono do time de basquete Los Angeles Clippers, foi expulso da liga de basquete norte-americana por ter ofendido adversários negros.

No evento do Ibmec ficou claro que o problema não se limita a rixas de torcidas apaixonadas, mas está assolando vários outros aspectos do convívio social. O presidente da Editora Abril, Fábio Barbosa, disse, em sua exposição, que "a falta de tolerância é a antítese da democracia", concordando com a ministra do STF. Segundo ele, o País está "vivendo um problema muito delicado de verdade única, de falta de convivência com a opinião contrária". E foi além: "Toda conduta que busca tutelar a sociedade é um risco para a liberdade de expressão. O politicamente correto exacerbado também é intolerância, porque ele não admite outro pensamento". O seminário foi realizado para divulgar o lançamento de uma nova cátedra no Ibmec, que resulta de parceria da entidade com o Instituto Palavra Aberta, sobre liberdade de expressão.

A presidente do Instituto Palavra Aberta, Patrícia Blanco, explicou a iniciativa, ao destacar que "a defesa da liberdade de expressão é uma luta cotidiana porque todos os dias aparecem novos desafios". A respeito do que ela disse, é o caso de lembrar que insistentes tentativas de grupos próximos ao comando do PT - principal legenda da coalizão governista - para restaurar a censura têm sido rechaçadas, primeiro pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e agora por sua sucessora, Dilma Rousseff.

Outro dos desafios dos defensores da liberdade é a tentativa de alguns setores da sociedade de contrapor o direito da privacidade do cidadão ao exercício da liberdade pelos veículos de comunicação. Sobre o tema, muito citado recentemente no debate sobre a necessidade de autorização do biografado para a publicação da própria biografia - neste momento sub judice no STF -, discorreu o professor da USP Eugênio Bucci, também diretor de pós-graduação em Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). "A privacidade é uma conquista da liberdade", esclareceu. E ainda pontuou: "Não podemos cair na armadilha de acreditar que a liberdade é relativa por força da privacidade".

Os conceitos expressos no seminário contribuem, de forma expressiva, para o aprimoramento do debate sobre a prática da democracia no Brasil hoje. A pluralidade de ideias e projetos políticos é o oxigênio sem o qual a democracia poderá sangrar até a morte.

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