Lições da crise grega

O socorro oficial à Grécia custará 110 bilhões em três anos com dinheiro fornecido pela União Europeia (UE) e pelo FMI. Essa ajuda equivale hoje a cerca de US$ 146 bilhões e corresponde à metade do valor de todos os bens e serviços produzidos no país durante um ano. É um auxílio gigantesco, mas considerado necessário para a segurança do euro, moeda comum de 16 países, e não só para o resgate de uma pequena economia levada à crise por governos irresponsáveis. Neste ano a Grécia deverá receber 45 bilhões, dinheiro mais que suficiente para cobrir as dívidas com vencimento nos próximos meses. O FMI deverá contribuir com 15 bilhões, numa operação condicionada à adoção de um duríssimo programa de ajuste e de reforma. O governo grego terá de vencer resistências políticas para aplicar o programa, porque muita gente reagirá, e já tem reagido, como se houvesse alternativa ao forte aperto de cinto previsto para este e para o próximo ano. Pelas últimas projeções, a economia grega deverá encolher 4% em 2010 e 2,6% em 2011, por causa da contenção do gasto público, do aumento de impostos e das inevitáveis demissões no setor privado.

, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2010 | 00h00

O plano de estabilização será especialmente duro porque o país não tem moeda nacional e não poderá, portanto, recorrer à desvalorização do câmbio. Não havendo flexibilidade cambial, o governo terá de concentrar o ajuste nas contas internas. O efeito será muito mais violento do que seria, se fosse possível depreciar a moeda e usar o comércio exterior para atenuar a contração econômica.

A crise grega é uma demonstração ao vivo e em cores da importância da disciplina fiscal nos integrantes de uma união monetária. O efeito seria pior se o problema surgisse antes numa economia bem maior, como a espanhola, porque o risco de contaminação seria muito maior. Mas, embora o PIB da Grécia seja comparativamente pequeno (cerca de US$ 330 bilhões antes da crise), o mercado financeiro reagiu como se outros países pudessem ir pelo mesmo caminho.

O rebaixamento de Portugal e da Espanha pela agência Standard & Poor"s foi seguido de uma reação de pânico. Os governos dos dois países logo responderam anunciando programas de estabilização fiscal. O evidente risco de contágio também contribuiu para os governos das maiores economias europeias vencerem a hesitação e acertarem de uma vez o programa de ajuda.

O governo brasileiro faria bem se levasse muito a sério o exemplo da crise grega ou, mais exatamente, da primeira crise do euro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus conselheiros diplomáticos deveriam guardar numa geladeira qualquer ideia de união monetária no Mercosul ou na Unasul. Falta muito para uma efetiva integração comercial entre os sócios do Mercosul e ainda mais para uma integração geral da região. A distância é ainda maior para uma articulação de políticas fiscais, indispensável para qualquer ensaio de união monetária.

Em linhas gerais, o acordo negociado entre o FMI e a Grécia segue o padrão tradicional. O governo grego terá de cortar severamente seus gastos e aumentar os impostos, para reduzir o déficit fiscal de 13,6% do PIB para cerca de 3% em 2014. Mas o governo deverá seguir o critério da progressividade quando mexer nos impostos, elevando a carga para quem ganha mais e evitando maior cobrança dos contribuintes mais pobres. Deverá também cuidar da rede de proteção social para atenuar os efeitos da crise. Além disso, terá de reformar a Previdência e a legislação trabalhista, para tornar a economia mais competitiva.

Programas de novo estilo foram aplicados na ajuda ao México, à Polônia e à Colômbia, quando a crise financeira se alastrou. Foram programas preventivos, sem condições, desenhados para países com boa reputação em política econômica. O problema do México se resolveu com uma oferta de US$ 40 bilhões, menos que um terço do total prometido à Grécia pelo FMI e pelos países da UE. O PIB do México, pouco superior a US$ 1 trilhão, é mais que o triplo do grego.

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