Lições olímpicas

Começa hoje, oficialmente, o maior evento esportivo da Terra, a Olimpíada de Londres, para a qual os brasileiros devem olhar com atenção redobrada, não em razão das eventuais medalhas, que obviamente serão bem-vindas, mas no que diz respeito à relação custo-benefício do esforço britânico para organizar os Jogos. Afinal, a próxima competição será no Rio de Janeiro, em 2016, e, ao que tudo indica, ainda não temos a dimensão exata do que significa ser sede olímpica, sobretudo em termos econômicos.

O Estado de S.Paulo

27 Julho 2012 | 03h08

Os britânicos estão vivendo esse dilema, como afirma reportagem do jornal Financial Times (FT) republicada no Valor (26/7). Especialistas mostram que, embora possa até gerar ganhos econômicos consideráveis, a maior parte deles estará concentrada nas mãos de uns poucos investidores envolvidos no empreendimento.

Estima-se oficialmente que o gasto com a Olimpíada, previsto inicialmente em 2,4 bilhões de libras (R$ 7,6 bilhões), tenha chegado a 9 bilhões de libras (R$ 28,4 bilhões). No entanto, apenas 10 mil vagas de trabalho foram criadas no país por conta dessa enorme injeção de recursos.

Ademais, diz o FT, o transtorno causado pelas obras na vida dos britânicos ao longo dos últimos anos, o chamado "custo de perturbação", resultou em perdas que não foram consideradas nas contas oficiais. Também não foram mensurados, por outro lado, os ganhos de longo prazo com imagem e com as obras de infraestrutura.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse estimar que a Olimpíada, financiada com dinheiro público, vai gerar 13 bilhões de libras (R$ 41 bilhões) em benefícios. Mas o FT sustenta não haver dúvida de que, se esses recursos fossem gastos em projetos de infraestrutura não ligados aos Jogos, e sim às demandas gerais dos britânicos, isso teria gerado benefícios mais significativos.

E então chegamos ao ponto que talvez interesse mais diretamente ao Brasil. A pergunta é se todo o enorme investimento que está sendo feito para atender às exigências da realização da Olimpíada no Rio não seria mais bem gasto em áreas de infraestrutura essenciais para a vida do País. No Brasil, diferentemente do que acontece na Grã-Bretanha, as necessidades básicas estão em toda parte - convém lembrar, por exemplo, que a atividade econômica nacional enfrenta diversos nós logísticos e 50% das casas brasileiras não têm esgoto.

Além disso, há o problema crônico da falta de transparência no uso do dinheiro público. O governo de Dilma Rousseff tanto fez que conseguiu afrouxar as regras de licitação para as obras consideradas estratégicas para a Olimpíada e a Copa do Mundo. O objetivo é acelerar o processo para cumprir os prazos combinados com as entidades esportivas, mas a iniciativa enseja todo tipo de oportunismo, que normalmente resulta em aumento de custos para o contribuinte.

Esse desperdício de dinheiro público pode ter efeitos importantes. A esse propósito, é conveniente olhar não para Londres, e sim para Atenas. A capital grega sediou os Jogos de 2004, fazendo reviver os sonhos de grandeza da antiga cidade olímpica. Em nome disso, a Grécia escancarou seus cofres para concluir obras de infraestrutura e as instalações esportivas a preços muito acima do que foi pago pelos australianos para fazer os Jogos de Sydney, em 2000. Hoje, oito anos depois, essas instalações estão abandonadas e os gregos ainda não sabem exatamente quanto gastaram com essa aventura, mas já conhecem bem um dos seus efeitos: ajudou o país a quebrar.

Para o Brasil, o maior impacto esperado por aqueles que se esforçaram para trazer a Olimpíada para o Rio é o de imagem - esperam eles que o País seja visto como uma potência que, por ter sido capaz de realizar um evento dessa magnitude, está apta a perfilar-se, política e economicamente, entre os países desenvolvidos. Conta-se, também, com o sentimento de satisfação dos brasileiros com os Jogos e tudo de bom que eles envolvem - e contribuintes contentes, mostra o FT, também acabam gerando mais riqueza.

Mas tudo isso talvez não seja o bastante para compensar, como se viu no desastroso caso grego.

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