Linhas ocupadas

É material didático de primeira ordem para um curso introdutório de ciência política, quando se trata de explicar o conceito de patrimonialismo - a apropriação dos bens públicos por grupos enquistados em instâncias dos poderes de Estado -, descrever como o esquema funciona numa situação concreta e analisar a mentalidade dos envolvidos. O material são transcrições de telefonemas interceptados pela Polícia Federal, com autorização judicial, no curso da Operação Barrica. A investigação, por sinal, levou ao indiciamento, por lavagem de dinheiro, tráfico de influência e formação de quadrilha, do primogênito do presidente do Senado, o empresário Fernando Sarney, que cuida dos negócios da família no setor de comunicação. A nora do senador, Teresa Murad, e outros oito suspeitos também foram indiciados.Na quarta-feira da semana passada este jornal revelou a existência de gravações nas quais Fernando, a sua filha Maria Beatriz e o senador José Sarney cuidam, a pedido dela, da nomeação do seu namorado Henrique Bernardes para o cargo de assessor parlamentar. O lugar tinha ficado vago porque o seu ocupante, Bernardo Brandão, meio-irmão de Maria Beatriz, mudara de emprego. Ontem, o Estado publicou o teor das conversas. Elas documentam mais do que um caso trivial de exercício do poder oligárquico e nepotismo. São uma amostra viva da absoluta naturalidade com que o clã opera para acertar o que, afinal, não passa de uma insignificância - o salário da vaga era de R$ 2,7 mil - perto dos valores com que os Sarneys lidam com desenvoltura, a julgar pelo retrospecto.Mas o coronelato político também se mantém com miudezas - nomeações de parentes, pequenos favores a colegas, amigos e agregados, uma boa palavra junto ao interlocutor certo para aliviar a dor de cabeça de um apaniguado, entre outros procedimentos do gênero difíceis de entender longe dos costumes e da lógica dos grotões. Mais difíceis de entender, por exemplo, do que um desvio de R$ 500 mil de um patrocínio cultural de R$ 1,3 milhão, como o que a Petrobrás concedeu à Fundação José Sarney. O que importa, em todo caso, é o modus operandi. O episódio da boquinha no Senado começa em 30 de março do ano passado com uma ligação de Maria Beatriz para Fernando. "Você acha que dá pro Henrique entrar na vaga dele (Bernardo) ou não?", ela pergunta. "Podemos trabalhar isso sim", responde, evidentemente sem se dar conta da ironia que o verbo embute nas circunstâncias.E já nesse primeiro movimento se descortinam as relações espúrias entre o filho do poderoso senador e o também poderoso, à sua maneira, Agaciel Maia, a quem o pai nomeara diretor-geral do Senado 13 anos antes. "Amanhã tu tem que me ligar, pra eu falar com o Agaciel", cobra Fernando. No dia seguinte, ele contará à filha que pediu ao outro, que alegara não ter autonomia para atendê-lo: "Pelo menos, ô Agaciel, segura a vaga." Promete "falar com papai ou mesmo com o Garibaldi (o então presidente do Senado Garibaldi Alves)". A relutância de Agaciel, que nem sequer aceitara ficar com o currículo do candidato da família, leva Maria Beatriz e Fernando a acionar o avô e pai. Telefona daqui, telefona dali, finalmente o empresário fala com um ajudante de ordem do senador e abre o jogo: "O irmão da Bia, quando papai era presidente do Senado, eu arrumei emprego pra ele lá. Ele agora tá saindo e eu liguei pro Agaciel pra ver a possibilidade de botar o namorado da Bia lá. Porque me ajuda, viu, é uma forma e tal de dar uma força pra mim." Pouco depois, filho e pai conversam. Sarney lhe pergunta se já tinha falado com Agaciel. Ao saber que sim, acede: "Tá bom. Eu vou falar com ele." E aproveita para informar que "ontem foi assinado o negócio da TV de Estreito, a repetidora (do grupo familiar)". O filho exulta: "Beleza, ótima notícia, tá, paizão, obrigado." Passados oito dias, Agaciel Maia assina o ato - secreto - de nomeação do namorado da filha do senador. Um entre 544, pela mais recente contagem. Outros serviram para nomear ou exonerar um irmão, uma cunhada, um neto e sobrinhas do cacique maranhense. Esse que "não é uma pessoa comum", como Lula deu de argumentar da primeira vez que saiu em defesa do aliado. José Sarney, efetivamente, é o chefe incomum de uma tribo predatória que perpetua no Brasil do século 21 a histórica tradição de fazer do Estado um privilegiado território de caça.

, O Estadao de S.Paulo

23 de julho de 2009 | 00h00

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