Lixo na Guarapiranga

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) retirou das águas da Represa Guarapiranga 1,1 milhão de litros de resíduos nos últimos dois anos. Captar e tratar a água daquele manancial, que abastece 4 milhões de pessoas da região metropolitana, é cada vez mais caro, dada a degradação do entorno da represa. Estimam-se em 200 mil os domicílios instalados na bacia, e pelo menos 40 mil despejam esgoto diretamente na Guarapiranga. O processo de tratamento da água exige que a Sabesp gaste de sete a dez vezes mais produtos químicos do que o necessário em sistemas como o da Cantareira, por exemplo. Além disso, a grande quantidade de lixo despejada na Guarapiranga obrigou a Sabesp a manter uma equipe de "lixeiros da represa" para evitar que todo tipo de despejo - de garrafas pet até mobiliário velho - descartado pelos moradores bloqueie os dutos da captação de água para tratamento e distribuição. Em fevereiro, mais de mil sacos de 100 litros de resíduos foram retirados da represa. O serviço de "cata bagulho" aquático também está sendo reforçado com a ajuda de dois barcos, com capacidade de armazenamento de 6 toneladas cada. Equipados com esteiras e pás, os barcos foram adquiridos recentemente, a um custo de R$ 200 mil cada um. Esses são os custos de anos de descaso do poder público diante da ocupação desenfreada das margens da represa, que deveriam ter merecido proteção integral e eficaz numa área de carência de recursos hídricos. No ano passado, a pedido do Ministério Público Estadual (MPE), a Universidade de São Paulo (USP) realizou análises das águas da Guarapiranga e detectou concentrações de poluentes bem acima do tolerado pelas leis ambientais. O estudo foi realizado entre os meses de setembro de 2007 e maio de 2008 e analisou 95 diferentes substâncias. Entre as substâncias que atingiram índices acima dos admissíveis estavam o alumínio, associado à doença de Alzheimer; os cianetos, ligados a danos na glândula tireoide e ao sistema nervoso; e coliformes termotolerantes, que reúnem bactérias e vírus. A substância que mais surpreendeu os pesquisadores foi o chumbo, causador de anemia e distúrbios neurológicos, cuja concentração nas águas da represa era 23 vezes maior que o admissível. Para que essas substâncias não representem riscos, é preciso arcar com o elevado custo do tratamento da água. Mas é preciso intensificar os esforços para a solução do principal motivo da degradação daquela bacia: a ocupação desordenada no entorno da represa. Entre 1998 e 2003, ela aumentou 19% e o espelho d?água do reservatório apresentou redução de 20%, o que diminuiu a capacidade de armazenamento de água em 50%.O Programa Mananciais, conduzido pelo governo do Estado, tem um cronograma de ações para a melhoria das condições do manancial. Em meados de março, por exemplo, o governador José Serra anunciou duas obras de esgotamento sanitário que vão contribuir para a despoluição da represa. A primeira será a construção de uma rede coletora de esgotos na região de Mombaça-Crispim, no município de Itapecerica da Serra. A segunda reunirá as interligações das redes do sistema de esgotamento sanitário ao coletor Embu-Mirim. No prazo de dois anos, as obras permitirão a elevação dos índices de coleta e tratamento de esgoto de 4% para 50%, livrando a Guarapiranga dessa carga poluidora.O governo estadual também investe em urbanização de favelas, reassentamento populacional e na expansão da infraestrutura básica, principalmente sanitária. Até 2011, pretende-se urbanizar 45 núcleos habitacionais espalhados por 1,1 mil hectares. Há dois anos, a Prefeitura de São Paulo se uniu ao governo estadual no Programa Operação Defesa das Águas, um conjunto de medidas com a finalidade de impedir novas invasões e deter o aumento da degradação dos mananciais. É importante que todas as outras prefeituras da Grande São Paulo se comprometam com esse mesmo objetivo.

, O Estadao de S.Paulo

04 de maio de 2009 | 00h00

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