Locaute dos caminhoneiros

O recente fechamento de pelo menos 22 rodovias em 9 Estados brasileiros não se insere no panorama de manifestações populares nas ruas das grandes cidades nas quais a cidadania manifesta sua indignação contra a péssima gestão pública, a inflação, a corrupção e outras mazelas da vida nacional. Não se trata de uma mobilização de natureza política, mas, sim, de um movimento de pressão econômica, um locaute, ou seja, o equivalente dos patrões à greve de operários.

O Estado de S.Paulo

03 Julho 2013 | 02h05

Os caminhoneiros que bloquearam trechos de estradas fundamentais para o tráfego de mercadorias e passageiros, tais como a Dutra, que liga o Rio a São Paulo, e as estaduais Castelo Branco, para o interior paulista (por 15 horas a fio) e a Anchieta, que dá acesso ao Porto de Santos, lutam por interesses específicos de sua categoria. Muitas vezes sem razão. Reclamam, por exemplo, do preço do óleo diesel, cujo reajuste foi feito muito abaixo do que a Petrobrás precisava para repor as perdas que sofreu por causa da decisão do governo de manter os combustíveis no mesmo valor, sem levar em conta o aumento do petróleo cru no mercado internacional.

Os militantes do Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC), um dos sindicatos da categoria, pretendem obter do governo subsídio para baratear o custo do combustível. Ou seja, que parte do custo de sua atividade seja financiada por contribuintes que nada têm que ver com o negócio deles.

Outra reivindicação injustificável é a redução (ou isenção) de cobrança de pedágios para caminhões, que são remunerados com fretes para transportar carga e devem arcar com as despesas de manutenção das estradas como quaisquer usuários.

No caso específico de São Paulo, o governo do Estado suspendeu o reajuste do pedágio nas estradas estaduais privatizadas. E, pressionado pelos bloqueios rodoviários, desistiu de cobrar desde o dia 1.º de julho pelos eixos suspensos, que caracterizam o deslocamento do caminhão sem carga.

Esses bloqueios em estradas paulistas também tentam, pela segunda vez, levar a Prefeitura da capital a recuar de sua decisão de não permitir a passagem de caminhões pelas avenidas marginais nos horários de pico. Neste caso, os caminhoneiros autônomos (empresários), liderados há 14 anos por Nélio Botelho, querem que a autoridade municipal paulistana submeta a prerrogativa coletiva dos usuários de transporte na maior cidade do País a seus interesses corporativos. Da primeira vez em que tentaram, o ex-prefeito Gilberto Kassab não cedeu. Seu sucessor, Fernando Haddad, ainda não deu sinais de que pretenda fazê-lo.

Os bloqueios também fazem eco às pressões de empresários para que se flexibilize a Lei do Descanso, aprovada no ano passado e que define carga horária para o trabalho dos condutores de caminhões nas estradas. O MUBC, representantes de pequenas empresas de transporte e grandes companhias de carga querem forçar o Congresso a reduzir o horário de descanso previsto na lei para os caminhoneiros. Outra entidade sindical ligada aos autônomos, a União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam), é contrária à mudança do dispositivo legal e também à paralisação. "O Nélio representa grandes empresários do agronegócio. Ele mesmo é um empresário e não defende interesses dos trabalhadores", acusou José Araújo China, seu presidente. A exemplo dele, o presidente do Setcesp, sindicato das transportadoras, se posicionou contra os protestos. "Temos que garantir o abastecimento dos supermercados, padarias, lojas e postos de combustíveis", argumentou.

Além desse problema citado, os bloqueios das estradas chamam a atenção para a insuficiência e a péssima manutenção da malha rodoviária brasileira, que oneram mais a atividade dos caminhoneiros do que outros itens dos quais eles reclamam. Cabe à autoridade desobstruir as estradas para garantir o direito de ir e vir dos usuários e a normalidade do abastecimento, proteger a vida dos motoristas e evitar prejuízos econômicos. Os caminhoneiros não estão acima da lei.

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