Lufada conservadora

O debate sobre a educação e o papel do professor na escola não pode ser interditado

*CARLOS ALBERTO DI FRANCO, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2018 | 03h00

A vitória de Jair Bolsonaro foi uma forte lufada conservadora. O Brasil real estava algemado pela interdição da ideologia petista. A sociedade estava cansada do populismo político, da corrupção, da ineficiência e do cerco aos valores tradicionais.

O presidente eleito soube captar o sentimento profundo da cidadania. Sua mensagem - na política, na economia, na educação, na defesa da família - foi ao encontro da alma nacional. Só isso explica seu desempenho. Sem dinheiro, sem partido, sem televisão e sem apoio midiático, Bolsonaro transformou-se num fenômeno eleitoral. 

As redes sociais, por óbvio, tiveram papel importante. Mas o que realmente fez a diferença, de longe, foi sua sintonia fina com a demanda reprimida da sociedade. Bolsonaro deu liga. É a bola da vez porque encarnou a onda do momento: um povo que reencontra suas raízes mais profundas.

O jornalismo precisa fazer a leitura correta dos acontecimentos. É preciso informar com objetividade. Esclarecer os fatos sem a distorção dos filtros ideológicos ou partidários. Mas as reações aos fatos são sempre problemáticas. São, frequentemente, a ponta do iceberg de interesses corporativos, cruzadas culturais e colonialismo ideológico. O poder move o mundo. Por isso a batalha do pluralismo e da liberdade exige uma correta interpretação daquilo que se oculta sob a aparência do fato. 

Assiste-se a uma intensa esgrima informativa a respeito do papel dos professores na formação dos alunos. Alguns entendem que a sala de aula se transformou em espaço de manipulação ideológica. É o caso dos idealizadores do projeto Escola sem Partido (www.escolasempartido.org.br). Estão convencidos de que os conteúdos ministrados pelos mestres não são neutros. São samba de uma nota só. O olhar marxista e relativista seria preponderante, quase asfixiante. A escola seria centro de proselitismo ideológico. A análise da economia, a visão da política, a interpretação da História e a formação das convicções morais dos alunos passariam por um implacável filtro gramsciano. Exagero? Talvez. Mas como lembrou editorial de O Estado de S. Paulo, “evidências não faltam de que muitos professores têm transformado salas de aula em laboratório de doutrinação ideológica esquerdista, sob o argumento de que é necessário criar ‘resistência’ a uma suposta onda conservadora”.

Pois bem, amigo leitor, para enfrentar o eventual assédio ideológico, algumas iniciativas ganharam espaço no Congresso Nacional. Projetos de lei em tramitação defendem a inclusão da “neutralidade política, ideológica e religiosa” nas escolas. Consulta pública lançada pelo Senado Federal sobre projeto de lei relacionado ao programa Escola sem Partido recebeu a opinião de mais de 300 mil pessoas. Segundo o próprio Senado, trata-se de um recorde: desde a criação da ferramenta online Consulta Pública, em 2013, nenhuma proposta recebeu tantas manifestações como a do Projeto de Lei 193, de autoria do senador Magno Malta (PR-ES), que inclui o programa na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Na verdade, não teríamos mais de 300 mil pessoas votando numa consulta pública se esse debate não fosse real. As pessoas estão percebendo que algo está errado nas escolas. O alto interesse na discussão sobre o projeto indica que há preocupação na sociedade sobre o papel do professor. É muito ruim pensar que se deva ter restrições ao que é feito em sala de aula. Por outro lado, tem havido uma maneira muito parcial de apresentar os fatos aos alunos, que também é contrária à ideia de uma educação crítica. 

A reação aos projetos de lei, agressiva e desproporcionada, indica que se tocou num ponto sensível. O discurso contra a Escola sem Partido está na contramão da realidade. É a estratégia clássica de desqualificação da opinião alheia e de demonização do adversário.

Lembro o profético Nelson Rodrigues: “Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura”. É isso aí.

Tal como as políticas nascidas das ideologias totalitárias, a atual intolerância execra - sem dar audiência ao adversário nem manter respeito por ele - os pensamentos que divergem dos seus “dogmas” e não hesita em mobilizar a “inquisição” de certos setores para achincalhar - sem o menor respeito pelo diálogo - as ideias ou posições que se opõem ao seu dogmatismo. Alegará que são interferências do pensamento conservador e liberal, quando um verdadeiro democrata deveria pensar que são outros modos de pensar de outros cidadãos, que têm tantos direitos como eles.

O debate sobre a educação e o papel do professor na escola não pode ser interditado. A sociedade brasileira não quer ser manipulada. Quer conhecer a realidade e influir no seu destino. Não acredito, sinceramente, que as atuais distorções em sala de aula possam ser resolvidas com censura ou ilusórias medidas legais. Nem todos os professores são militantes. Muitos são verdadeiros mestres, forjadores de pessoas livres e independentes. É preciso abrir um debate desarmado de preconceitos. E os professores não podem ser alijados da discussão.

A chave está na família. Os pais devem ter um ativo protagonismo na educação dos seus filhos. É a família, e não o Estado, que tem o poder decisório a respeito da formação da juventude. Não tem sentido, por exemplo, que os pais sejam afastados da educação da sexualidade das suas crianças. É um abuso totalitário. E está ocorrendo.

O Estado tutor não é bom formador. É sempre manipulador. É preciso lutar para que as associações de pais não sejam uma abstração, mas uma presença decisória nas escolas.

*JORNALISTA: E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.