Lula e o adeus ao poder

Há um componente novo no comportamento do presidente Lula que se torna aparente cada vez com maior frequência. Em ambientes e locais diversos, ele passou a demonstrar uma emoção quase incontrolável, que o deixa com os olhos marejados, a voz embargada e o rosto comprimido pela emoção. Interlocutores privilegiados garantem que ele já começa a viver a emoção da despedida do poder.

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2010 | 00h00

Não é preciso ser psicólogo nem estudioso da alma humana para concluir que essas demonstrações de emoção são sinais da tristeza que está por vir, em decorrência do próximo e inevitável adeus aos oito anos de poder quase imperial.

Talvez não seja muito delicado dizer isto, mas, para quem chegou a São Paulo num pau de arara e, a despeito da baixa escolaridade, construiu pelas próprias pernas uma quase inacreditável carreira política, deve ser medonho afastar-se do Palácio do Planalto, do avião a jato disponível a qualquer hora, da multidão de bajuladores, dos assessores que batem palmas até doerem as mãos.

Os banquetes, os almoços com os amigos, os vinhos de US$ 2 mil a garrafa, o poder de influir sobre a vida de tantos - tudo isso forma um universo de situações felizes que deixarão de existir quando outra pessoa lhe suceder no Palácio do Planalto.

Ainda que se possa admitir a hipótese, bastante plausível, de que sua candidata acabará por se eleger, em verdade quem vai estar no palácio, nos banquetes, no avião presidencial será ela. Isso o tornará, quem sabe, um conviva festejado, mas já não será o alvo das homenagens e honrarias.

Quando o triunvirato do horror (presidentes da Bolívia, da Venezuela e do Equador) vier ao Brasil, para os costumeiros agrados e obtenção de apoio, a atenção não estará mais voltada para a sua pessoa, e sim para o novo chefe da Nação, seja homem, seja mulher.

Se houver um novo convite da rainha da Inglaterra para o inesquecível passeio na carruagem imperial, o beneficiado já não será o antigo líder metalúrgico. De outra parte, possivelmente nunca mais sentirá de perto o hálito de bomba atômica de seu amigo e aliado presidente do Irã - e tomara que fique aliviado com isso.

Sem nenhuma dúvida, o presidente Lula começa a tornar aparentes os efeitos dessa próxima e irreparável perda de poder. Os políticos costumam dizer que o poder é como mulher bonita, que a gente não deve deixar para o outro, mas Lula nesse aspecto demonstrou uma certa grandeza, que merece ser destacada.

Com os inacreditáveis índices de popularidade que conquistou, não lhe seria difícil estimular os aliados no Congresso Nacional, que constituem maioria, a aprovar uma emenda constitucional capaz de lhe garantir o direito de disputar o terceiro mandato.

Os seus adversários temiam isso, mas ele foi leal a si próprio, às promessas que fizera de não ficar e afastou de pronto a possibilidade. Ou seja, o momento político eleitoral oferecia-lhe a possibilidade de permanecer mais quatro anos no Palácio do Planalto, no avião presidencial, no centro das atenções, mas o seu lado democrático não o deixou sucumbir. É justo que se lhe credite respeito por esse gesto.

Nesta antevéspera de seu afastamento, é importante reconhecer que talvez ninguém na História deste país tenha conquistado posição tão elevada e tanto prestígio em tão pouco tempo. Sobretudo, ninguém que saiu lá de baixo, como Lula, alcançou índices de popularidade tão expressivos.

Sempre se disse que Lula é um homem de sorte e não há dúvida alguma quanto a isso. Quem se lembra de que o Brasil era a "bola da vez" no governo de Fernando Henrique Cardoso? Por melhores que se mostrassem os passos da política econômica, naquela oportunidade, o ambiente externo era hostil ao extremo e impunha ao Brasil uma dura provação.

Com Lula deu-se o contrário: o panorama externo tornou-se bastante favorável e a escalada da economia consolidou gradativamente a melhora no padrão de vida de número bastante significativo de brasileiros. Sem dúvida, o controle da inflação, que devemos ao antecessor Fernando Henrique, concorreu para isso, mas é forçoso consignar que houve em parte êxito nos esforços da atual política econômica. Tanto assim é que pessoas beneficiadas, agora, externam sua aprovação. Há até mesmo indicativos razoavelmente confiáveis de que os brasileiros da classe C caminham para subir para a classe B, o que, se vier a ocorrer, será muito bom para o Brasil.

Nessa aura de sorte que o acompanha, Lula assiste agora, seguramente com satisfação, à aprovação popular de sua candidata à Presidência da República, refletida em todas as pesquisas de votos.

E a sua sorte é tamanha que os adversários tucanos, sempre incapazes de fazer oposição, não percebem que, ao fustigar a adversária, fazem com que ela cresça cada vez mais na aprovação popular.

Até mesmo a abominável quebra do sigilo fiscal de diversos tucanos parece ajudar a candidata Dilma Rousseff, porque, na medida em que é atacada pelo adversário José Serra, este cai nas pesquisas eleitorais, na mesma proporção em que ela sobe. Há uma certa ingenuidade, quase tolice, em não perceber que isso está acontecendo.

A incapacidade tucana de fazer oposição não permitiu que seus líderes, até agora, enxergassem uma ululante realidade: as quebras do sigilo fiscal tornadas públicas em momento algum atingiram o filho do presidente Lula, ou o seu famoso compadre ótimo nos negócios, nem José Dirceu, nem Delúbio Soares, nem nenhum outro político da cúpula petista. Somente tucanos foram atingidos.

Imagino o que os petistas fariam se tivesse ocorrido o contrário. Enfim, Lula tem também a sorte de seus opositores serem os tucanos.

ADVOGADO, É DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

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