Luz e sombra na recuperação

Apesar do cenário misto de janeiro, o estado de humor captado entre executivos do setor industrial, na pesquisa Sensor, foi positivo no mês passado

O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 03h00

A exportação de US$ 10,67 bilhões de manufaturados no primeiro bimestre é até agora um dos sinais mais fortes de reação da indústria. O valor exportado em janeiro e fevereiro foi 5,3% maior que o de um ano antes, pela média dos dias úteis. A perspectiva de uma grande safra de grãos, em parte já confirmada pelas primeiras colheitas, também dá alguma segurança de um ano com números positivos, depois da mais longa e mais funda recessão da história republicana. Mas a maior parte da informação divulgada até agora compõe um quadro pouco claro, estimulante em alguns aspectos, mas ainda com muitas sombras. Um exemplo de sinais mistos é o Indicador de Nível de Atividade (INA) da indústria paulista, anunciado ontem. O número de janeiro foi 0,7% menor que o de dezembro, descontados os fatores sazonais. A queda acumulada em 12 meses foi de 8,3%. Mas a variação mensal foi positiva em 11 dos 18 setores incluídos no relatório da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Apesar do cenário misto de janeiro, o estado de humor captado entre executivos do setor industrial, na pesquisa Sensor, foi positivo no mês passado. A avaliação das perspectivas de negócios ficou em 50,6 pontos, ligeiramente acima da fronteira (nível 50) entre o pessimismo e o otimismo. No mês anterior o Sensor ainda havia ficado em 49 pontos, completando um período de três anos em território pessimista. Houve melhora nos indicadores de vendas e de emprego. Essa mudança é atribuível em boa parte à expectativa de redução mais intensa da taxa básica de juros, segundo comentou o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini.

Também mistos, mas muito animadores, foram os dados de janeiro publicados pela Anfavea, a associação dos fabricantes de veículos. A produção de 174,1 mil unidades foi 12,9% menor que a dezembro, mas 17,1% superior à de um ano antes. O total licenciado foi 5,2% menor que o de janeiro de 2016, mas as vendas externas – veículos e máquinas agrícolas e rodoviárias – foram 47,9% maiores, em dólares, que as de janeiro do ano passado.

No bimestre, os embarques de automóveis, com receita de US$ 831 milhões, ficaram no topo das exportações de manufaturados. Pela média dos dias úteis, o valor exportado ficou 30,1% acima do conseguido no mesmo mês de 2016. Também aumentaram as vendas externas de veículos de carga, motores e autopeças, de acordo com o Ministério da Indústria, do Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

Sinais de melhora na produção e nas exportações do setor automobilístico ainda parecem longe, pelos dados de janeiro, de se refletir na recomposição do emprego. O número de empregados, de 121,1 mil, foi praticamente o mesmo de dezembro e 6,5% menor que o de janeiro do ano passado. Se o total fosse o mesmo de um ano antes, no entanto, ainda faltaria muito para alcançar o contingente de janeiro de 2014, quando havia 156,9 mil trabalhadores nas fábricas. Em três anos, a redução do quadro chegou a 22,8%.

O desemprego elevado continua dificultando a recuperação do consumo. No trimestre de novembro a janeiro as pessoas em busca de emprego totalizaram 12,9 milhões, ou 12,6% da força de trabalho, segundo o IBGE. Em janeiro, foram fechadas 40,86 mil vagas de empregos com carteira, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. No entanto, esse levantamento apresentou um dado positivo, com saldo de 17.501 postos de trabalho abertos na indústria de transformação.

De toda forma, desocupação e perda de renda ainda limitam os negócios. O movimento de consumidores nas lojas foi em fevereiro 1,8% maior que no mês anterior, mas o aumento foi insuficiente para compensar a queda de 2,1% em janeiro. Além disso, o movimento ainda foi 2,7% menor que o de fevereiro de 2016.

Há, sem dúvida, mais luz no cenário, mas a recuperação mal começou. Poderá ganhar impulso com mais sinais positivos – e confiáveis, é claro.

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