Luzes sobre as micro e pequenas indústrias

Eu acho, tu achas, ele acha... Quando a conversa gira em torno da pequena empresa no Brasil, entra em cena o já histórico achismo, uma verdadeira praga a vicejar no terreno fértil onde tenta progredir o espírito empreendedor. É em consequência do achismo que o Brasil ainda se encontra amarrado a um dos piores cenários do empreendedorismo mundial.

Joseph Couri *,

20 Abril 2013 | 02h06

A explicação para isso é simples: como o segmento da micro e pequena empresa é complexo, diverso, possui características próprias que o distinguem dos demais - das empresas médias e das grandes -, ninguém consegue enxergá-lo por suas diferenças. Em consequência desse desconhecimento, a micro e a pequena empresas nunca são tratadas, como deveria ser feito, por suas desigualdades. As políticas públicas que têm por objetivo incentivar o setor empresarial, por exemplo, são sempre endereçadas às grandes empresas, imaginando-se que as pequenas também serão beneficiadas, o que não é verdade. Os desiguais precisam ser tratados por suas desigualdades.

É uma realidade que o Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias do Estado de São Paulo (Simpi) quer mudar, pelo menos em relação à sua base paulista. E já tomou uma primeira iniciativa de fôlego nessa direção: um instituto de pesquisa (Datafolha) foi contratado para prospectar os cenários e expectativas com que trabalha o universo de cerca de 200 mil micro e pequenas indústrias paulistas. Serão 12 rodadas de pesquisa nesta primeira fase do projeto. Com base nos dados apurados será possível criar um primeiro indicador seguro do desenvolvimento da micro e pequena indústria. É o jeito, creio que bastante eficaz, de começarmos a eliminar o achismo do debate que ocorre em torno da pequena empresa. Todos os que tiverem acesso às pesquisas - e uma das missões do Simpi é divulgá-las amplamente - poderão discorrer com propriedade e segurança sobre o tema.

O programa liderado pelo Simpi com o objetivo de criar um primeiro indicador das atividades da micro e pequena indústria paulista tem outros complementos importantes: a Universidade Mackenzie vai desenvolver estudos econômicos e jurídicos para sugerir políticas governamentais de incentivo às micro e pequenas indústrias e a KPMG fornecerá os cenários da economia mundial para melhor formulação do indicador paulista.

Temos a convicção de que o programa pode representar um marco histórico na trajetória das pequenas empresas no Brasil. É, na verdade, o início de uma transformação de base no posicionamento político das entidades que representam o segmento. Começaremos a trabalhar com informações estruturadas sobre o que somos, como trabalhamos, quais são nossos problemas, nossas dificuldades e também nossas expectativas. Isso permitirá também aos micro e pequenos empreendedores operar com uma base de dados organizada.

Com a divulgação da primeira rodada, começamos a acender luzes sobre a micro e pequena indústria paulista. Na base do Simpi são mais de 200 mil micro (até 9 funcionários) e pequenas (de 10 a 50 funcionários) indústrias. Desse universo, 36% estão localizadas na capital e 16% encontram-se nas cidades da Região Metropolitana de São Paulo, como Osasco e Santo André. As demais estão espalhadas pelo interior. Campinas, por exemplo, é o segundo município do Estado em número de pequenas indústrias: tem 5.400 unidades.

Os setores mais representativos da micro e pequena indústria paulista são os de construção civil (13%), vestuário (11%), alimentícios (10%), impressos (9%), fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (7%), fabricação de produtos de borracha e material plástico (6%), fabricação de máquinas e aparelhos elétricos (6%), móveis (4%) e metalurgia (4%).

Vejamos, por outro lado, o que a pesquisa nos diz sobre o posicionamento político dos nossos industriais: enquanto 65% dos brasileiros consideram o governo Dilma Rousseff "ótimo" ou "bom", apenas 39% dos micro e pequenos empresários paulistas da indústria têm a mesma opinião. Para 45% deles, o governo de Dilma é apenas regular. Eles têm também opinião muito parecida sobre o governo paulista, de Geraldo Alckmin: 39% o acham "ótimo" ou "bom" e 45% o consideram regular.

O que essas informações nos dizem? Que faltam políticas de incentivo específicas para a pequena indústria tanto da parte do governo federal quanto do governo estadual. São informações objetivas, captadas por metodologia científica. Nada de achismo.

A primeira rodada nos mostra também que as 200 mil micro e pequenas indústrias de São Paulo vivem um momento de desconfiança e expectativa. Estão preocupadas com a escalada da inflação e com os níveis de inadimplência do comércio. As que sofrem o impacto dos produtos importados enxergam "deslealdade" na concorrência. O segmento, portanto, está em compasso de espera. Não se pode dizer que esteja pessimista porque 71% dos micro e pequenos industriais de São Paulo se mostram satisfeitos com a qualidade de sua mão de obra, o que é um dado animador.

É extremamente confortável afastar-se do achismo e começar a falar do segmento com dados, segurança e adequação. Por exemplo: 44% das micro e pequenas indústrias paulistas preveem situação melhor para abril, mas só 2% esperam forte crescimento no faturamento; nada menos que 74% dos empresários do segmento preveem a manutenção ou queda nos lucros durante este mês de abril; apenas 18% pretendem abrir novos postos de trabalho neste mês e 39% dizem estar perto do limite da capacidade de produção. Existe, portanto, margem para crescimento, mas a disposição para investir está travada pelo panorama conjuntural.

Dá muito orgulho perceber que estamos quebrando velhos paradigmas.

* Joseph Couri é presidente do Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias do Estado de São Paulo.

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