Macri e uma nova cultura política

O fim da ‘crispación’ une até velhos inimigos. A Argentina está aprendendo a dialogar

FABIO GIAMBIAGI*, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 03h00

Desde 1928, na Argentina nenhum presidente não peronista eleito conseguiu entregar o poder ao sucessor na data prevista. Hipólito Yrigoyen foi deposto pelo golpe de 1930. Depois dos conturbados anos 30, na década de 40 surgiu o peronismo, concluído com a “Revolução Libertadora” de 1955. Poucos anos depois, Arturo Frondizi parecia inaugurar uma nova era de desenvolvimento com presidentes não peronistas, mas foi vítima de um golpe. Restabelecida a democracia, coube a Arturo Illia a tarefa de tentar novamente normalizar a vida política – num contexto de democracia restrita, com o peronismo proscrito – para mais uma vez a tentativa fracassar, com o golpe militar do general Onganía, em 1966.

Após o restabelecimento da democracia em 1973, com o peronismo liberado, o novo experimento terminou no golpe de Videla, de 1976, e seu terrível legado de 10 mil desaparecidos. Com a derrota nas Malvinas, em 1983 inaugurou-se a era de Raúl Alfonsín, que, escorraçado pela hiperinflação, teve de encerrar o mandato meses antes do previsto para entregar o poder a Menem. Quando este passou o poder a De la Rua, parecia que aquela maldição inaugurada em 1930 poderia chegar ao fim, mas o vaticínio mais uma vez se revelou errado e ele teve que sair às pressas da Casa Rosada em dezembro de 2001 na hiper-recessão do final da convertibilidade.

Frondizi, Illia, Alfonsín e De la Rúa, portanto, compõem um rosário de fracassos que levou mais de um analista a concluir que a Argentina seria ingovernável sem o peronismo no poder. Como este costumava, historicamente, concluir suas gestões com enormes desequilíbrios macroeconômicos – com Perón, Isabelita, Menem e os Kirchnera –, dir-se-ia que se estaria na presença de uma versão “portenha” da famosa frase de Benito Mussolini: “Governare l’Italia non è facile ne dificile, è impossibile”.

Esse retrospecto negativo prognosticava um cenário negativo quando Mauricio Macri foi eleito, em dezembro de 2015, para governar a Argentina por um período de quatro anos, particularmente considerando a realidade em que ele assumiu, caracterizada por uma situação de franca minoria da sua coalizão eleitoral, protagonizada por seu partido, PRO, a União Cívica Radical e o grupo político de Elisa Carrió. Se, além disso, se levasse em conta a dimensão dos problemas herdados do ciclo kirchnerista, quem em dezembro de 2015 tivesse uma bola de cristal para conhecer o futuro e saber que a Argentina sofreria uma recessão em 2016 teria fundadas razões para supor que, seguindo o exemplo daqueles antecessores citados, Mauricio Macri também acabaria entregando os pontos antes do tempo, fracassando rotundamente.

As placas tectônicas, porém, podem estar se movendo na Argentina. Como esses movimentos do fundo da Terra que acontecem em alguns lugares sem que ninguém perceba na superfície e um dia alteram algum ponto do mundo, houve nos últimos tempos fenômenos importantes no país vizinho, cujas dimensões estão começando a aparecer.

Há uma palavra que recorrentemente entra na moda na Argentina: destituintes. São grupos políticos organizados que se articulam para depor (destituir) um governo legitimamente eleito. Não há dúvida nenhuma que grupos ligados ao peronismo tiveram participação ativa nos fatos que levaram à queda de De la Rúa, assim como em episódios anteriores, com o agravamento da crise econômica nos últimos meses de Alfonsín e, antes, com Illia. Como disse com certa sabedoria uma liderança sindical peronista, que tem mantido um diálogo intenso com o governo Macri, “todos aprendemos muito com as lições de 2001”.

Aquela débâcle política, traduzida no grito de guerra “que se vayan todos”, que marcou o contexto da eleição de Néstor Kirchner, deu início a uma época na qual, em nome da recuperação da governabilidade, o sistema político cedeu espaço ao exercício de uma liderança política personalista e autoritária, inicialmente a cargo de Néstor e, posteriormente, de sua esposa, Cristina, cujo prolongamento por anos deixou o país exaurido e cansado de guerra. Hoje, a demanda pelo fim da “crispación” une até mesmo velhos inimigos. Nesse contexto, a Argentina está aprendendo a dialogar.

Para isso contribuiu muito a figura do próprio Macri. Originário de uma cultura empresarial que valoriza a liderança, mas treinado depois na procura do consenso, com o aprendizado de dois mandatos à frente da prefeitura da cidade de Buenos Aires e em minoria no Congresso, ele soube desde o início que seu lema teria de ser “dialogar ou perecer”. E apesar de uma realidade econômica muito pior que a imaginada pelo mais pessimista dos membros do Gabinete no seu primeiro ano – inflação de 40%, déficit público enorme, economia em recessão, etc. –, ele está conservando (ainda) elevados índices de popularidade e conseguindo transmitir aos argentinos uma sensação de normalidade, claramente valorizada como positiva pela maioria da população.

Num contexto político marcado pela existência de diferentes grupos de pressão – a oposição congressista, os sindicatos, a Igreja Católica, politicamente muito influente na Argentina, os governadores, o empresariado, etc., além da opinião pública em geral –, ele soube inteligentemente fazer alianças e, em que pesem alguns erros políticos graves na gestão do dia a dia, transcorrer os primeiros 30% do seu mandato em situação relativamente confortável. Beneficia-se para isso da fragmentação do peronismo em diversos grupos e candidaturas e da existência de um conjunto relevante de governadores da oposição que precisam entender-se com o poder central para evitar que a crise econômica afete a própria governabilidade das suas províncias.

A má notícia é que a Argentina continua em crise. A boa é que se está fazendo Política com P maiúsculo.

* FABIO GIAMBIAGI É ECONOMISTA

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