Mais além do Xingu

"Eu sou a mosca que pousou na sua sopa" - avisou Raul Seixas numa canção que ainda nos emociona. Raul aprendeu com Sócrates?

Eliana Cardoso,

09 Maio 2012 | 03h08

Na Apologia - transcrição feita por Platão do tribunal que julgou o filósofo -, Sócrates desprezou punições como exílio e multa, alegando que, vivo, continuaria a atazanar os atenienses. E assegurou a própria execução ao refletir sobre as virtudes da morte, entre as quais incluiu a capacidade de falar com outros homens injustamente executados. Foi durante esse processo que Sócrates afirmou ser uma mosca-do-gado: o trovão determinado a acordar Atenas de seu estupor.

Inexiste desacordo sobre a chatice das moscas, mas sobre Sócrates existem mais controvérsias do que as que cercam nossas políticas indigenistas, das quais trataremos mais adiante. Como personagem nos diálogos de Platão, ele fica bem na foto. No entanto, Aristófanes acusa-o de palhaço, capaz de torcer a linguagem para escapar às dívidas.

Cá estamos diante de um exemplo que justifica nosso ceticismo quanto à confiabilidade das histórias que lemos e a que assistimos no cinema. Não é à toa que o próprio Sócrates não escreveu nada, conquistando o primeiro lugar na lista de personalidades que mudaram o mundo sem redigir uma única linha, ao lado de Buda, Confúcio e Jesus. Mas se Sócrates quisesse mudar o destino dos índios brasileiros teria de escrever muitos documentos, produzir inúmeras imagens e contratar outras moscas para azucrinar pessoas e motivá-las a discutir dilemas de difícil solução.

Clique em www.uncontactedtribes.org e veja que ainda existem no mundo algumas sociedades "isoladas" ou "não conectadas": um grupo pequeno nas Ilhas Andaman (Índia), outro na parte ocidental de Papua-Nova Guiné. Mas a maioria está na região do Rio Amazonas. A Funai registra referências a 82 grupos, entre os quais 32 têm existência confirmada.

Mais de cem anos atrás várias tribos fugiram das atrocidades do boom da borracha para regiões quase inalcançáveis. Os Flecheiros, por exemplo, vivem nas cabeceiras dos Rios Itaquaí e Jutaí, no lado brasileiro da fronteira com o Peru. São personagens do livro de Scott Wallace, que relata uma expedição de 76 dias organizada e liderada em 2002 por Sydney Possuelo, então um dos diretores da Funai.

Possuelo acreditava numa política de zonas de exclusão e considerava um fracasso as duas políticas anteriores. A primeira foi a do marechal Cândido Rondon, que a construção de linhas telegráficas pôs em contato com indígenas. Nomeado diretor do Serviço de Proteção ao Índio em 1910, recebeu o mandato de integrá-los. Rondon empenhou-se, mas os índios, considerados cidadãos de segunda classe e tratados com desdém pelos colonos, não puderam conquistar uma assimilação verdadeira e mergulharam na pobreza e na apatia. A situação tornou-se tão deplorável que o Ministério do Interior nomeou uma comissão para investigá-la. Um relatório de 5 mil páginas expôs assassinatos, torturas, escravidão, abusos sexuais e apropriação das terras dos índios.

Em 1970 criou-se a Funai, liderada pelos irmãos Villas Boas. O Brasil começava a construir a Rodovia Transamazônica, que atravessaria a pátria de numerosas tribos desconhecidas. Os Villas Boas organizaram um programa intensivo para contatar e pacificar os índios e mover aldeias inteiras para a reserva do Xingu.

A pacificação deu-se pela distribuição de facões, machados, panelas de metal, fósforos, mosquiteiros e roupas. Cada um desses itens melhora de forma exponencial a vida na selva. A pessoa que aprende a existência dessas coisas se transforma. E faltando educação adequada a dependência rebaixa um povo antes orgulhoso e confiante à mendicância.

Xingu, de Cao Hamburger, termina com a afirmação otimista de que o parque continua perfeitamente preservado. Ao contrário, um documentário de 2006, Xingu, a Terra Ameaçada, mostra motocicletas cruzando as aldeias e lixos repletos de plásticos. Numa cena desse documentário, crianças assistem à TV enquanto o cacique - esquecido de que veste camisa e usa óculos de grau - se diz preocupado com a perda de tradições e afirma não querer absolutamente nada dos brancos.

Não admira que Sydney Possuelo se tenha desiludido com a política de pacificação e proposto uma terceira política com base em zonas de exclusão, onde tribos isoladas viveriam de forma tradicional, sem risco de armas ou germes. Mas, sob a pressão de garimpeiros, grileiros e madeireiros, as zonas de exclusão são expediente temporário. Haja fé na lei para acreditar que as reservas poderão permanecer invioláveis por muito tempo.

Mesmo que zonas de exclusão fossem possíveis, essa política estaria moralmente correta? Se Sócrates fosse vivo, que perguntas ele escolheria para nos azucrinar? Com certeza perguntaria o que os índios preferem. Viver sem panelas e sem mosquiteiros? E mais: temos o direito de manter pessoas num museu cultural? Escolheríamos para nós mesmos uma vida curta, na ausência da medicina moderna, e dura, apesar da visão romântica e tão difundida do bom selvagem?

Xingu, a Terra Ameaçada documenta o costume de enterrar vivos os filhos gêmeos. E mostra um parto que se estende por 48 horas, enquanto os pajés engolem fumaça e comem mingau para acalmar o espírito da mandioca, pois só ele pode liberar o bebê. Os velhos queixam-se de que os jovens querem bicicletas e desejam viajar. Quem pode privá-los da oportunidade de experimentar os resultados de nossa herança cultural de 3 mil anos? A questão é como dar o salto. O abismo cultural é profundo demais.

Não quero ser a mosca que pintou pra lhe abusar, mas você já pensou que a assimilação, apoiada em investimentos substanciais em educação de qualidade, permanece como a única opção ética e duradoura?

* PH.D. PELO MIT,  É PROFESSORA, TITULAR DA FGV-SÃO PAULO SITE: WWW.ELIANACARDOSO.COM

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