Mais cuidado com os inocentes

Polícia não pode ter carta branca e extrapolar limites

O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 03h08

Que a polícia tem de ser dura no combate ao crime todos estão de acordo. Os índices de criminalidade registrados na capital – embora tenham caído substancialmente nos últimos anos – ainda são muito elevados e o problema da segurança pública, aqui como no restante do País, continua sendo apontado pela população como um dos que mais a afligem. Mas esse sentimento e a espera, que o acompanha, de uma resposta enérgica e eficiente das autoridades não podem ser confundidos com uma carta branca para a polícia extrapolar limites e contrariar regras que devem pautar suas ações.

Infelizmente foi isso que se viu na operação realizada pela Polícia Civil na noite de domingo, no bairro do Morumbi, para prender uma quadrilha de assaltantes. A quadrilha deixou de existir, porque em confronto com policiais dez de seus integrantes foram mortos. Quatro policiais tiveram ferimentos leves. Mas a vida dos moradores visados pelos assaltantes e a de seus vizinhos foram colocadas em risco, o que é inaceitável. O elevado número de mortos, muito acima do registrado comumente nesse tipo de ação, logo chamou a atenção.

Segundo os policiais do Departamento de Investigações Criminais (Deic), eles chegaram ao local em viaturas descaracterizadas, por volta das 19h30, quando a quadrilha já havia invadido uma mansão na Rua Puréus e dominado as pessoas que ali se encontravam – três mulheres e uma criança. Eles chegaram a quebrar parede para ter acesso a um cofre, onde estariam objetos de valor, e, quando perceberam a aproximação dos policiais, tentaram fugir.

O mínimo que se pode dizer é que foi temerário começar um tiroteio com os assaltantes nessas condições. Afinal, segundo as informações correntes, a polícia estava em perseguição da quadrilha desde as 13 horas. Não é possível que, no interregno, não houvesse oportunidade de interceptar os bandidos sem riscos para a população inocente. Expor a perigo a vida daquelas quatro pessoas, na ânsia de prender logo os assaltantes, não é o que se esperava de policiais bem treinados como devem ser os do Deic. O mesmo vale para o que aconteceu quando os bandidos já tinham fugido da mansão: três num carro que logo colidiu com um carro da polícia, dois que estavam a pé e mais cinco em outro carro, que partiu em direção contrária à do primeiro. Todos mortos no intenso tiroteio que se seguiu.

Tão intenso que alguns moradores das ruas Puréus e adjacentes disseram ter pensado tratar-se de fogos de artifício. Um deles calcula ter ouvido mais de 100 disparos. Um confronto desse porte, com bandidos bem armados, num bairro residencial, com o risco de pessoas saírem às ruas para ver o que estava acontecendo, é algo incompreensível e inaceitável da parte da polícia.

O fato de aquela ser uma quadrilha perigosa e responsável por mais de 20 roubos a residências em bairros nobres da capital, especialmente Morumbi e Jardim Europa, e em condomínios de luxo na Grande São Paulo, como Cotia e Barueri, como afirma nota da Secretaria da Segurança Pública – o que foi confirmado pelo testemunho de moradores –, não justifica a falta de cuidado de uma ação como aquela, que podia ter feito vítimas entre pessoas inocentes, alheias ao tiroteio.

Não dar a devida atenção à segurança dos moradores da região é particularmente grave, e ao mesmo tempo incompreensível, levando-se em conta que, como diz a mesma nota da Secretaria, a quadrilha foi investigada durante sete meses pelo Deic. É de supor, portanto, que tanto sua maneira de agir como as armas a que tinha acesso – foram apreendidos quatro fuzis – eram de pleno conhecimento dos policiais. Ou seja, a polícia dispunha – ou deveria dispor, segundo todas as evidências – dos elementos necessários para planejar a operação de captura da quadrilha, evitando riscos à integridade física dos moradores. Afinal, o objetivo da operação era agir em favor deles.

Agora, só resta esperar que fatos como esse não voltem a se repetir. Mas para isso é preciso, em primeiro lugar, que as autoridades reconheçam que algo saiu errado.

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