Mais cuidado com os juros

Preferindo o caminho da prudência, o Copom cortou os juros básicos para 13,75% ao ano

O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2016 | 04h00

Preferindo o caminho da prudência, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou os juros básicos para 13,75% ao ano, com uma redução de apenas 0,25 ponto. Horas antes, mais um recuo da economia brasileira havia sido confirmado oficialmente. Sete trimestres de recessão foram completados no período de julho a setembro, quando o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu mais 0,8%. A retração acumulada em um ano chegou a 4,4%, num cenário com 12 milhões de desempregados e nenhum sinal de recuperação a curto prazo. Além disso, a inflação tem diminuído, em parte por causa da moderação dos consumidores. Haveria, portanto, segundo alguns analistas, bons argumentos para justificar uma redução maior dos juros, talvez de 0,5 ponto porcentual. Terá sido uma oportunidade perdida?

Esses e outros fatores foram ponderados pelos integrantes do Copom, segundo a nota publicada, como é habitual, logo depois da reunião. O texto menciona duas avaliações especialmente relevantes para quem julgava defensável uma decisão mais audaciosa. Em primeiro lugar, a inflação tem-se mostrado “mais favorável que o esperado, em parte em decorrência de quedas de preços de alimentos, mas também com sinais de desinflação mais difundida”. Por isso, as expectativas de aumentos de preços têm recuado. Em segundo lugar, a atividade econômica tem ficado abaixo das previsões e por isso têm diminuído as projeções para o PIB neste e no próximo ano. Não há menção direta, no comunicado, ao prosseguimento da recessão no terceiro trimestre, embora o relatório tenha saído no mesmo dia. Mas o quadro geral era conhecido.

Mas os membros do Copom encontraram – de forma unânime, segundo a nota – razões ainda mais fortes para uma decisão cautelosa. O primeiro ponto importante é o aumento da incerteza no exterior, com maior probabilidade, agora, de um aumento dos juros a curto prazo nos Estados Unidos. Se isso ocorrer, os movimentos de capitais poderão ser afetados, com impacto no câmbio e, portanto, na formação dos preços no Brasil. Não é mencionado o nome do presidente eleito Donald Trump, mas há uma referência à insegurança quanto ao rumo da política econômica americana.

Como segundo ponto, a nota menciona “sinais de pausa na desinflação de alguns componentes do IPCA”. Isso já havia aparecido em outros documentos do Copom, com destaque para a evolução, ainda preocupante, dos preços de serviços. Como terceiro item, o informe destaca o processo, longo e incerto, de “aprovação e implementação de reformas e ajustes necessários” ao fortalecimento da economia. Não se trata, é importante notar, apenas de ajustes contábeis, como o das finanças públicas, mas também de reformas, como a da Previdência. Feito o balanço de riscos, a decisão foi por um corte de 0,25 ponto, apesar da recessão ainda grave e do recuo recente da inflação.

Se há algo notável nesse arrazoado, é a reafirmação mais clara dos critérios anunciados pelo presidente do BC, Ilan Goldfajn, quando assumiu o posto. A fidelidade a esses critérios pareceu menos firme quando o Copom decidiu o primeiro corte dos juros básicos, de 14,25% para 14%, na reunião dos dias 18 e 19 de outubro. A nota distribuída na ocasião apontou, por exemplo, “os primeiros passos no processo de ajustes” como suficientes para justificar uma redução da taxa.

Será o cenário atual muito mais incerto, agora? A maior novidade é a eleição de Donald Trump. Alguns talvez considerem pior que o esperado o quadro econômico nacional, com recessão ainda severa e sinais de menor confiança na recuperação. Mas essa avaliação do cenário pesaria a favor de um corte maior de juros. Tudo parece confirmar, enfim, uma fidelidade maior aos princípios de política enunciados há meses. Além disso, um corte de 0,5 ponto provavelmente pouco ajudaria a retomada, por causa da situação dos consumidores. O Executivo terá de proporcionar tanto o aumento da confiança, com avanço em ajustes e reformas, quanto o impulso de uma política pública de investimentos.

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