Mais dólares no mercado

Enquanto governo e oposição negociam à beira de um abismo fiscal e a um passo de uma nova recessão, o banco central (BC) dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), afrouxa mais uma vez a política monetária, em novo esforço para estimular a maior economia do mundo. Por mais um longo período os juros básicos serão mantidos na faixa de zero a 0,25% ao ano e mais centenas de bilhões de dólares serão emitidos. Se o truque funcionar, os negócios imobiliários ganharão algum dinamismo e os empresários voltarão a investir em máquinas, equipamentos e instalações. A recuperação do mercado americano interessa a todos os demais parceiros, incluído o Brasil. Grandes emissões de dólares, no entanto, sempre envolvem o risco de novos desajustes no mercado cambial e de mais problemas para as indústrias de economias emergentes.

O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2012 | 02h08

O Comitê de Mercado Aberto do Fed (Fomc), responsável pela política monetária americana, decidiu na quarta-feira manter as compras de papéis lastreados em hipotecas até o limite de US$ 40 bilhões por mês. Resolveu também autorizar as compras de títulos de longo prazo do Tesouro, com aplicação de US$ 45 bilhões mensais, inicialmente. Somadas as duas operações, a carteira do Fed poderá aumentar dos atuais US$ 2,9 trilhões de títulos para cerca de US$ 4 trilhões no fim de 2013. O saldo dessas aplicações foi multiplicado por três desde 2008. Foi essa a inundação de dólares causada pelo Fed a partir do agravamento da crise.

Para os críticos, a forte expansão monetária dos últimos quatro anos foi inútil, porque a economia americana continuou estagnada e o desemprego cresceu até recentemente. Além disso, boa parte do dinheiro emitido acabou vazando para os mercados especulativos e para aplicações nos países emergentes. Mas é preciso avaliar esses comentários com alguma cautela.

Os dirigentes do Fed precisaram agir porque os estímulos fiscais foram insuficientes para dar à economia o impulso necessário. Sem o afrouxamento da política monetária a recessão poderia, talvez, ter sido mais prolongada e mais severa. O resultado geral teria sido melhor, muito provavelmente, se a oposição republicana aos incentivos orçamentários tivesse sido menos dura nos últimos quatro anos.

Essa mesma oposição retardou até o último instante, no ano passado, a necessária elevação do teto da dívida pública. O Tesouro americano chegou a um passo da insolvência. O acordo alcançado naquela ocasião envolveu um compromisso perigoso. Se nenhum novo entendimento fosse alcançado até o fim deste ano, 2013 começaria com o corte automático de benefícios fiscais à classe média e um aumento de impostos fortemente regressivo, isto é, muito menos pesado para os ricos do que para os demais contribuintes.

Esse novo acordo ainda está em negociação. Se o esforço falhar, o resultado será a queda no chamado abismo fiscal e, provavelmente, uma nova recessão. Se isso ocorrer, os impactos serão sentidos em todo o mundo. A negociação entre governo e oposição nos Estados Unidos é acompanhada com atenção em toda parte. Dirigentes do Fundo Monetário Internacional têm cobrado abertamente uma solução razoável para o impasse americano.

Se o impasse levar o país ao desastre fiscal, nenhum truque do Fed será suficiente para compensar o aperto orçamentário. O presidente do BC americano, Ben Bernanke, chamou a atenção para isso em pronunciamento na quarta-feira.

De toda forma, os dirigentes do Fed já se comprometeram com mais um longo período de política monetária expansionista. Além de anunciar o aumento das emissões de dinheiro em troca de papéis do Tesouro e de títulos imobiliários, eles apresentaram uma novidade muito bem recebida pelos mercados financeiros. Os juros próximos de zero serão mantidos enquanto o desemprego for superior a 6,5% (em novembro ficou em 7,7% da força de trabalho) e a inflação se mantiver no limite de 2,5% ao ano. Houve, portanto, uma elevação de 0,5 ponto na meta. A explicitação desses pontos de referência para a política monetária é uma novidade bem-vinda, porque torna mais transparente a ação do banco central.

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