Mais educação financeira

Crédito a taxas que alcançaram 482% ao ano em dezembro é a cocaína das finanças

*Roberto Macedo, O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2017 | 03h09

Noutra leitura da crise econômica em andamento, vê-se que tanto governantes como governados carecem de educação financeira. A União e, de modo geral, os Estados e os municípios estão em sérias crises orçamentárias, indicando que governantes – em geral, fiscalmente irresponsáveis – não se prepararam para períodos de vacas magras, como hoje. Entre os governados, milhões de brasileiros se excederam no endividamento quando essas vacas eram gordas, muitos dos quais se revelando inadimplentes nos seus cadastros em serviços de proteção ao crédito.

De um modo geral, é disseminada a negligência quanto a princípios básicos de boa gestão financeira, como a necessidade de poupar e investir, a proteção contra riscos de perda de receita, o endividamento moderado e voltado sobretudo para investimentos e a atenção cuidadosa quanto às taxas de juros com que empréstimos e financiamentos são tomados. Há quem tome, via cartões, crédito a taxas que chegaram a 482% ao ano no mês passado, o que deveria ser proibido. É cocaína financeira.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) define educação financeira como “o processo mediante o qual os indivíduos e as sociedades melhoram sua compreensão de conceitos e produtos financeiros, de maneira que, com informação, formação e orientação, possam desenvolver valores e competências necessários para se tornarem mais conscientes das oportunidades neles envolvidos e, então, poderem fazer escolhas bem informadas, saber onde procurar ajuda e adotar outras ações que melhorem o seu bem-estar. Assim, podem contribuir de modo mais consistente para a formação de indivíduos e sociedades comprometidos com o futuro”.

É uma definição ampla, mas muito centrada nos tais “conceitos e produtos financeiros”. Entre outros aspectos, deve também incluir a adequada gestão do consumo de bens e serviços. Mesmo se não financiado, pode prejudicar a poupança, um aspecto fundamental da boa gestão financeira.

A carência de educação financeira é internacional e recebe atenção até em países desenvolvidos. Nos EUA, por exemplo, já houve na presidência do país um comitê voltado para aprimorá-la. E o governo britânico adicionou a chamada alfabetização financeira ao currículo escolar de alcance nacional.

A ficha também caiu no Brasil. Em 2010 o governo federal criou a Executiva Nacional de Educação Financeira (Enef), com a finalidade de “promover a educação financeira e previdenciária, e contribuir para o fortalecimento da cidadania, a eficiência e solidez do sistema financeiro nacional e a tomada de decisões conscientes por parte dos consumidores.” A Enef é conduzida por um comitê do qual participam órgãos governamentais e entidades da sociedade civil. Realiza várias atividades e seu próprio site oferece educação financeira (vidaedinheiro.gov.br).

No governo federal há outras instituições que tocam seus próprios programas, com destaque para o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O primeiro tem (www.bcb.gov.br) o programa Cidadania Financeira, que inclui educação nessa área nas escolas de níveis fundamental e médio, um curso online de gestão de finanças pessoais, uma calculadora financeira também online e um caderno com foco na gestão dessas finanças. A CVM oferece (cvm.gov.br) o Portal do Investidor, com os conceitos iniciais de investimentos e mercado financeiro, e o blog Penso, Logo Invisto, com artigos científicos e debates sobre finanças pessoais. A CVM também se tem destacado ao realizar anualmente sua Conferência de Ciências Comportamentais e Educação do Investidor, que no final do ano passado teve a sua quarta edição. Participei das duas últimas e me impressionaram o alcance internacional, a relevância dos temas tratados e as dezenas de sessões de discussão desses temas.

No setor privado destacam-se a BM&FBovespa, com orientação a investidores, e não apenas em ações (bmfbovespa.com.

br/pt_br/como-investir), e a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), com educação para investidores em geral e, de modo específico, para estudantes universitários (www.anbima.com.br/pt_br/educar/educacao-do-investidor/educacao-do-investidor.htm). E a Associação Brasileira de Planejadores Financeiros, a Planejar (planejar.org.br), que confere no Brasil a certificação internacional CFP®, de Planejador Financeiro Certificado, para a qual se exige educação continuada, com renovação a cada dois anos. Esses planejadores são formados para ajudar as pessoas a organizar sua vida financeira de maneira a atingirem seus objetivos ao longo da vida, também uma forma de educação na área.

Como se percebe, há várias iniciativas meritórias quanto a essa educação, mas são recentes. Ainda falta muito para que ela alcance o cidadão comum. Em particular, deve ser levada às escolas de nível fundamental e médio, esperando-se que seus estudantes também passem o aprendizado às suas famílias. Existem várias iniciativas nesse sentido, mas ainda de caráter muito limitado. E discute-se muito como fazer isso de forma abrangente e eficaz.

Não cabe adotar mais uma disciplina no currículo escolar, mas passar os ensinamentos básicos de educação financeira no conteúdo de Matemática, porém sem o caráter abstrato com que essa matéria é comumente lecionada. O ensino deve ser contextualizado mediante exemplos. Entre outros, os das virtudes da poupança, de operações bancárias, de compras em supermercados e lojas, de tal forma que os estudantes se habituem a praticar os ensinamentos, sem o que serão mais lições logo esquecidas, como muitas recebidas nas escolas. Nessa linha, a Matemática – outra carência enorme da população – também atrairia maior interesse, reforçado pelo fato de que ela passaria a focar também no uso do dinheiro.

*Economista (UFMG, USP e Harvard), é consultor econômico e de ensino superior

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