Mais realismo na Petrobrás

Se o conselho de uma empresa privada tivesse encontrado tanta dificuldade como o Conselho de Administração da Petrobrás enfrentou para impor à diretoria da estatal a revisão do plano de investimentos para 2011 e para os próximos quatro anos, com o objetivo de adequá-lo à situação das contas públicas e à realidade econômico-financeira do País e da empresa, certamente boa parte dessa diretoria, se não toda ela, teria sido substituída. Embora detenha folgada maioria no Conselho da Petrobrás, o governo precisou de três reuniões para, afinal, incluir uma dose de realismo nos planos da empresa, ao que a diretoria executiva vinha se opondo. Mas, apesar de tanta resistência às determinações do controlador da empresa, a diretoria não será alterada.

, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2011 | 00h00

Da proposta inicial do Plano de Negócios 2011-2015, que previa investimentos de mais de US$ 270 bilhões, a Petrobrás cortou cerca de US$ 50 bilhões, limitando suas aplicações a US$ 224,7 bilhões, valor praticamente igual ao que foi aprovado para o período 2010-2014, de US$ 224 bilhões. Desde o fim da década de 1990, com a abertura do setor de petróleo à iniciativa privada, é a primeira vez que a Petrobrás não amplia de maneira significativa seus investimentos.

A decisão do Conselho afeta também planos de curto prazo. A empresa terá de cortar até os investimentos previstos para 2011, de US$ 93 bilhões para US$ 84,7 bilhões. E fará isso faltando apenas cinco meses para o término do ano.

Em nota na qual informa o mercado sobre a decisão de seu Conselho, a Petrobrás esclarece que a decisão implicará, pela primeira vez, a inclusão de "um programa de desinvestimento em um montante de US$ 13,6 bilhões". Isso quer dizer que a empresa terá de vender ativos no valor citado. Em entrevista que concedeu na segunda-feira, o presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli, não detalhou esse "desinvestimento", dizendo apenas que implicará a venda em bloco de ativos em áreas exploratórias e de participação em outras empresas, assim como a melhoria na gestão de capital de giro.

O objetivo dessa venda de ativos, de acordo com a nota divulgada pela empresa, é alcançar "maior eficiência na gestão dos ativos da companhia e rentabilidade". Implicitamente, ela reconhece que, por meio de medidas de austeridade, é possível melhorar a qualidade de sua administração e, ainda assim, assegurar a rentabilidade das operações em benefício de seus acionistas.

A necessidade de mais realismo e mais eficiência na gestão da empresa tinha sido mencionada pelo presidente do BNDES, Luciano Coutinho, membro do Conselho de Administração da Petrobrás, logo após uma das reuniões nas quais o plano proposto pela diretoria foi rejeitado. "A Petrobrás deve caminhar para metas mais realistas", disse Coutinho. "O Conselho coloca pressão para que a empresa seja eficiente, de forma a garantir o retorno dos projetos."

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, foi quem, em nome do governo, impôs um freio nos grandiosos planos de investimentos da empresa, de modo a reduzir suas encomendas e seus gastos no mercado interno e, assim, evitar um aquecimento ainda mais intenso da demanda num momento em que a inflação sobe. Além disso, com o corte de seus gastos, a empresa pode contribuir para melhorar o superávit primário do governo.

Este parece ser um raro caso em que a ingerência do governo na gestão de uma empresa que tem ações negociadas em bolsa pode resultar em ganhos para todos. Mesmo com o corte de investimentos em relação à proposta inicial de sua diretoria, a Petrobrás deverá aumentar sua produção em relação às metas anteriores. A meta de produção de óleo e gás natural no Brasil para este ano foi mantida em 2,1 milhões de barris por dia e a de petróleo e gás no País e no exterior, em 2,77 milhões de barris equivalentes a óleo por dia (boed). Já para 2020 a meta é de 6,418 milhões de barris equivalentes, 20% mais do que a estimativa de 5,382 milhões de barris do plano anterior.

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