Mais seguro juntar reservas

O Brasil vai continuar acumulando reservas, avaliadas em US$ 246,5 bilhões na semana passada, e não há por enquanto limite para essa política, disse em Nova York o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. Reservas como as atuais garantem ao País uma situação confortável. Servirão de barreira protetora, se houver uma nova crise internacional. Em nível pouco mais baixo, ajudaram a economia brasileira a enfrentar o impacto da crise iniciada em 2007 com o estouro da bolha imobiliária. Mas há outra razão para se manter essa política, embora as autoridades monetárias se limitem, quase sempre, a mencionar a segurança como seu objetivo. As intervenções no mercado de câmbio têm servido para atenuar as grandes oscilações. Isso já é um resultado apreciável, embora as ações sejam insuficientes para interromper a tendência de valorização do real.

, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2010 | 00h00

A acumulação de reservas tem custo. Para comprar dólares, a autoridade é obrigada a aumentar o volume de reais em circulação, com risco de pressão inflacionária, ou a emitir papéis, aumentando a dívida pública. Além disso, o governo só pode aplicar seus dólares em ativos da máxima segurança, que rendem menos que o custo da dívida. Quando o volume de reservas se aproximou de US$ 200 bilhões, intensificou-se a discussão sobre a conveniência de interromper a acumulação. Mas o BC manteve a política e seu acerto foi comprovado quando os efeitos da crise chegaram ao Brasil.

Talvez se pudesse obter o mesmo resultado com reservas menores, dirão os mais insistentes, mas nunca se poderá testar essa hipótese. Só há um fato bem determinado: quando a economia mundial tremeu, o crédito cessou e os investidores foram em busca de segurança, o BC estava preparado para atender às necessidades dos bancos e dos empresários brasileiros. Diante disso, a especulação diminuiu e em pouco tempo o nível de reservas era maior do que no começo.

Desde o ano passado, o FMI tem defendido menor acumulação de reservas pelos superavitários. A ideia tem sentido como parte da política de reequilíbrio mundial. O desequilíbrio envolve diversos países, mas seus atores principais são obviamente os EUA e a China.

Menor empenho na acumulação de reservas deve corresponder a um menor esforço para obtenção de superávits no comércio e nas transações em conta corrente. Em linguagem menos cifrada, a mensagem é simples: importem mais dos Estados Unidos e de outros deficitários e a economia mundial será melhor para todos. Se algum país entrar em dificuldades e precisar de reforço para suas contas cambiais, poderá dispor do apoio do FMI. Melhor, ainda, se o Fundo puder funcionar como um pool de reservas, ideia posta em circulação em outubro do ano passado, na reunião do FMI em Istambul.

Mas empréstimo do FMI não é substituto para reservas cambiais, disse o ministro Guido Mantega, num discurso em Washington. O problema, afirmou, é o estigma associado aos programas financiados pelo Fundo. Essa foi sua única alegação a favor da política de reservas como fator de segurança.

O argumento é um tanto rústico na forma e no conteúdo. México, Polônia e Colômbia receberam apoio financeiro do Fundo, sem condições, quando a crise se agravou. Usaram a linha de financiamento criada especialmente para países com boa reputação em política econômica. Nenhum deles ficou estigmatizado pelo auxílio recebido, no momento certo, do FMI.

Não é preciso recorrer a discursos de comício ou de centro acadêmico para defender a acumulação de reservas. A preocupação com a segurança é um argumento bastante forte, quando se leva em conta o quadro internacional. Têm ocorrido mudanças nos EUA e na China, mas nada garante a consolidação, a médio prazo, de um novo equilíbrio. Da mesma forma, ninguém sabe quando virá a esperada mudança cambial chinesa. Além disso, os fluxos de capitais continuam sendo um importante fator de risco num mundo já sujeito a muitas incertezas. Já se comprovou a conveniência de reservas elevadas. Para que mudar, se o mundo pouco mudou?

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