Mais um ano de enchentes

Os transtornos causados pelas fortes chuvas que têm castigado a capital nos últimos dias são uma amostra do que os paulistanos enfrentarão neste verão, porque as obras que podem reduzir os efeitos das enchentes ou estão atrasadas - as mais simples - ou só produzirão resultado a médio prazo, como é o caso da construção de piscinões. Este poderá ser, portanto, mais um ano em que a maior cidade do País não terá como deixar de pagar o preço da imprevidência dos administradores tanto do Município como do Estado.

O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2013 | 02h09

Um exemplo de medidas que podem trazer melhoras a curto prazo é a destinada a proteger os semáforos e impedir que deixem de funcionar por causa das chuvas. Há muito que isso acontece com um grande número deles, complicando o já caótico trânsito da cidade e agravando ainda mais o problema das enchentes. Como essa é uma providência simples e relativamente barata, é incompreensível que tenha demorado tanto a ser adotada. No ano passado, o então prefeito Gilberto Kassab assinou contrato com a AES Eletropaulo para a instalação de equipamentos "no-break" para proteger de panes 176 semáforos.

O secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, cobrou da Eletropaulo rapidez na execução do contrato e afirmou que até agora nenhum desses equipamentos está em operação. Garante a empresa que tem prazo para tal até o fim de abril e que já funcionam 200 semáforos com "no break", instalados de acordo com contrato anterior. Independentemente da procedência ou não dessa queixa, Tatto tem uma boa oportunidade de provar que o atual governo municipal é mais eficiente do que o anterior nessa questão - basta cumprir promessa que acaba de fazer de enterrar a fiação dos semáforos, para evitar panes, uma medida que garante mais segurança do que aquele equipamento.

Isso deve começar a ser feito no segundo semestre, ao custo estimado de R$ 50 milhões. Os primeiros semáforos a terem a fiação enterrada serão os dos corredores de ônibus, porque já têm para isso licitação em andamento. A medida vai apenas "amenizar" o problema, reconhece Tatto. Por isso, a Prefeitura anunciou ao mesmo tempo obras de maior alcance contra enchentes - a construção de quatro piscinões, nas Bacias dos Rios Aricanduva e Pinheiros, nas zonas leste e sul. Nenhuma dessas obras ficará pronta a tempo de ajudar a reduzir os efeitos das inundações este ano.

O mesmo se aplica a uma parte importante do programa contra enchentes - muito mais ambicioso - em execução pelo governo do Estado. É o caso da construção de 44 piscinões, um investimento de R$ 1,8 bilhão em obras e de R$ 3,4 bilhões em manutenção e limpeza dos reservatórios. Serão construídos pelo governo 14 piscinões, ficando os outros 30 por conta de Parcerias Público-Privadas. Ou seja, o futuro da maior parte deles é incerto, porque depende de empresas privadas verem vantagens em investir nesse projeto.

A outra parte daquele programa - a limpeza do leito do Tietê, ao custo estimado de R$ 317 milhões - é tão importante quanto os piscinões, com a vantagem de que está muito adiantada e pode mesmo ajudar a evitar inundações ainda este ano. Ela vai aumentar a vazão do rio, que chegará a 1.048 metros cúbicos por segundo na altura do Cebolão. Essa vazão ficará muito próxima da que se conseguiu sete anos atrás, quando foram concluídas as obras de desassoreamento e aprofundamento do leito do Tietê e alargamento de suas margens.

A obra custou R$ 1,7 bilhão e permitiu reduzir, consideravelmente, por algum tempo, o risco de inundação nas margens do rio. Infelizmente, a falta de manutenção da limpeza do Tietê - só recentemente retomada - fez com que se perdesse esse ganho importante, essencial para o combate às enchentes, no entender dos especialistas.

Se a lição desse erro for aprendida, e se os programas de obras da Prefeitura e do Estado forem cumpridos, será possível avançar bastante, num prazo razoável, no combate às enchentes que tanto castigam os paulistanos.

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