Mal do começo ao fim

Com a inflação acumulada de 12 meses de 6,75% em setembro, acima do limite de tolerância (de 6,5%) de um regime de metas inflacionárias já excessivamente complacente, e sem sinais de que as pressões sobre os preços arrefecerão de maneira expressiva até dezembro, o governo Dilma Rousseff completará os quatro anos que os eleitores lhe concederam da maneira como começou: muito mal. E deixará as finanças públicas e a economia brasileira em condições bem piores do que encontrou, com o crescimento tendendo a zero, o descumprimento da meta de superávit primário e, de modo cada vez mais evidente, a paralisia do mercado de trabalho. Não adianta culpar "a crise externa" por esse quadro desastroso (ver, abaixo, editorial Nas contas, destaque negativo). Ele foi sistematicamente construído desde 2003. Na economia, o governo Dilma colhe o que o PT plantou.

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2014 | 02h05

O que fez a inflação ultrapassar o teto do regime de metas do Banco Central (BC) foi a alta de 0,57% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - calculado pelo IBGE e que baliza a política de metas do BC. Em setembro, a variação foi bem maior do que a esperada pelos analistas do mercado financeiro. A inflação do mês é a maior desde abril e o acumulado de 12 meses, o maior desde outubro de 2011, primeiro ano do governo Dilma.

Um dos principais responsáveis pela alta de setembro foram os preços dos alimentos, que vinham caindo há meses (redução de 0,11% em junho, 0,15% em julho e novamente 0,15% em agosto), mas no mês passado subiram 0,78%. São preços voláteis, muito suscetíveis às variações do mercado, o que pode resultar em altas expressivas nos próximos meses.

Este não é o único componente preocupante da inflação em setembro. Nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Recife e Curitiba, a alta de 12 meses superou 7% (7,63%, 7,16% e 7,13%, respectivamente). E cresceu o índice de difusão de altas entre os componentes do IPCA, ou seja, mais preços estão subindo. Mas os preços administrados, aqueles sobre os quais há alguma forma de controle - como dos combustíveis - subiram menos. Em algum momento, porém, eles terão de ser corrigidos.

Tanto a variação de setembro como o acumulado de 12 meses são apenas alguns pontos que se aproximam dos extremos de alta de preços desde o início do atual governo. O que o exame dos números da inflação ao longo da gestão Dilma mostra, porém, é que a alta de setembro não é exceção. Tendo herdado do governo anterior - chefiado por Lula, criador da carreira política e inspirador da presidente Dilma Rousseff - uma inflação anual de 5,91%, o atual não conseguiu reduzi-la para a meta de 4,5%. Em 2011, o IPCA acumulou alta de 6,5; em 2012, de 5,84%; e, em 2013, de 5,91%. Embora dentro da margem de tolerância, essas variações estão muito acima da meta. Em 2014, pelos dados já conhecidos, a inflação poderá ficar dentro da larga margem de tolerância, mas muito próxima do teto.

A meta de 4,5% vem sendo mantida desde 2003, primeiro ano do governo Lula, apenas com a redução da tolerância (de 2,5 pontos porcentuais para mais ou para menos em 2003, para 2 pontos nos anos seguintes). Nesse período, a meta só foi cumprida em três exercícios (2006, 2007 e 2009).

Não faz sentido, por isso, a declaração do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, para quem "estamos num regime de metas e temos que responder às metas" e "estamos entregando há 11 anos". A inflação tem ficado, na maioria desses anos, dentro do largo limite de tolerância, mas acima da meta.

Neste ano, além da aceleração da inflação que já era alta, o governo colhe a forte desaceleração da economia, que deve crescer apenas 0,3% de acordo com a mais recente projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI). O mercado de trabalho, que ainda apresenta sinais positivos, acabará sendo afetado pela desaceleração da atividade econômica e uma de suas consequências, que devem surgir no próximo ano, é a queda da renda real. E o superávit primário bem abaixo do prometido.

Este é o péssimo quadro que ficará para o próximo governo. Para corrigi-lo, não basta mudar só a política econômica.

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