Mandela e a alegria que vem de dentro

Recordo episódio já narrado aqui: durante a Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável 2002, o autor destas linhas estava em Joanesburgo, na África do Sul, impressionado com o que via nas ruas: bastava juntarem-se três ou quatro negros da cidade para imediatamente começarem a cantar e dançar, com largos sorrisos na boca. Perguntado sobre como era possível ser assim - já que a pobreza, o desemprego, um "apartheid" de fato (embora abolido por lei) continuavam muito fortes -, o jovem David, motorista de táxi, engravatado, empertigado, não vacilou: "Isso é porque com o sofrimento nós aprendemos que a nossa alegria tem de vir de dentro, não pode depender de nada fora de nós". Inesquecível.

WASHINGTON NOVAES, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2013 | 02h08

Bastava olhar ao redor para ver que ele tinha razão. A Joanesburgo "branca" era tão apartada que só havia ônibus, por exemplo, de Soweto, o enclave "negro" de mais de 1 milhão de pessoas, para as áreas dos colonizadores europeus e seus descendentes da madrugada até as 7 horas da manhã; à tarde, na direção contrária, das 17 às 19 horas - era o transporte indispensável para levar "negros" que trabalhavam para brancos.

Perguntado como era possível um convívio assim, David não hesitou: "Nós aprendemos com Mandela - perdoar, sim; esquecer, nunca". Por isso mesmo, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse a respeito do recém-falecido Prêmio Nobel da Paz que "ninguém fez mais em nosso tempo para avançar valores e aspirações. Ir para a prisão por nossas convicções e estar preparado para sofrer por aquilo em que acreditamos é algo que vale a pena. É uma realização para o homem cumprir o seu dever na Terra, independentemente das consequências".

Agora, os quase 52 milhões de sul-africanos não têm mais Nelson Mandela, o Madiba, com seu sorriso permanente, apesar dos 27 anos de prisão. Nem a África toda. No mesmo dia de sua morte, o Conselho de Segurança da ONU aprovou, após conflitos sangrentos entre muçulmanos e cristãos, a intervenção militar na vizinha República Centro-Africana, outra herdeira da pesada herança de colonizadores europeus. Mas essa herança continua levando a conflitos e guerras no antigo Congo, na Etiópia, no Sudão, no Mali, em Ruanda, na Nigéria, na Guiné Equatorial, no Zimbábue e em outras partes. Com frequência, na disputa de etnias nativas por recursos naturais - água e terra, principalmente - em áreas das quais foram desalojadas. É "o horror", como descreveu Joseph Conrad em O Coração das Trevas.

Na própria África do Sul, as disparidades são alarmantes, com os 10% mais ricos da população detendo 58% da renda, enquanto os 10% mais pobres têm menos de 1%. As taxas de desemprego andam próximas de 25%, mas entre jovens e negros está acima de 50%.

Não é só a questão no campo da política. A ONU alerta (Estado, 5/2) para uma "epidemia" de estupros em campos de refugiados no Congo. Diz a Universidade de Londres que 300 milhões de pessoas não têm acesso a água de boa qualidade (embora em partes da África haja cem vezes mais água subterrânea que superficial). Há uma "epidemia" de HIV na Suazilândia, em Botswana, no Lesoto e na própria África do Sul, que afeta mais de 20% das mulheres e pessoas entre 15 e 49 anos. Ao todo são 11% da população africana. A malária mata uma criança por minuto no continente, segundo a Rádio ONU.

E a África ainda se vê às voltas com a questão do clima, pois é a região mais afetada no mundo. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) no documento Africa's Adaptation Gap Report, o continente precisa de US$ 7 bilhões a US$ 15 bilhões anuais para implantar programas de adaptação às mudanças climáticas, principalmente as questões de secas, desertificação, inundações em cidades, perdas na agricultura. Se a temperatura planetária se elevar em 3 graus Celsius - como se prevê -, os recursos necessários aumentarão em 10% ao ano; se passar de 3 graus, tornará inviável o plantio de milho, sorgo e outros cereais; se o aumento for superior a 4 graus, haverá redução de 20% a 30% nas chuvas ao norte e no sul - e 96% da agricultura depende totalmente de chuvas. Já se contam, diz o Pnuma, 240 milhões de subnutridos no continente, mais que toda a população brasileira. Não é casual a frequência dos naufrágios de embarcações que a cada dia transportam centenas de pessoas em busca de refúgio ilegal na Europa, principalmente. Ou a de pessoas que morrem de fome tentando atravessar o deserto, para fugir.

Pena que Mandela, já muito doente nos seus 95 anos, não estivesse em condições de ver as homenagens que lhe foram prestadas mais uma vez em 18 de julho, Dia Internacional de Nelson Mandela, segundo a ONU. Porque a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) reconhece que "temos nos inspirado durante todos estes anos nos repetidos chamamentos de Mandela para combater a fome e os muitos males sociais e econômicos que ou levaram à fome ou se deveram à falta de acesso aos alimentos num mundo de relativa abundância". De fato, não se trata de escassez absoluta. Diz a revista The Economist que a economia africana em seu conjunto cresce cerca de 6% ao ano. Mas isso não resolve as questões de quem passa fome.

Não se podem cruzar os braços, ainda assim. Nos dias seguintes à morte de Mandela, os sul-africanos saíram às ruas de novo para homenageá-lo - cantando e dançando. E nesta semana em que se realiza no Brasil o Fórum Mundial de Direitos Humanos precisamos colocar a questão no centro das nossas atenções - seja o que acontece em qualquer lugar no mundo, seja no panorama interno. E também não podemos seguir entre nós com o processo de desmoralização institucional, em todos os setores públicos. Mandela está aí, em espírito, para nos lembrar que é possível ir em frente - e mudar tudo. Sem perder a alegria.

JORNALISTA

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