Manifestação pacífica

As manifestações públicas realizadas no domingo em todo o País evidenciaram, por seu caráter eminentemente democrático – a despeito da presença de alguns saudosos da ditadura militar – e pacífico, um significativo contraste com a baderna e o vandalismo patrocinados por entidades 'representativas' de segmentos da população, como UNE, CUT e MTST, que saíram às ruas de Brasília no último dia 29

O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2016 | 03h07

As manifestações públicas contra a corrupção e em defesa da Operação Lava Jato realizadas no domingo em todo o País evidenciaram, por seu caráter eminentemente democrático – a despeito da presença de alguns saudosos da ditadura militar – e pacífico, um significativo contraste com a baderna e o vandalismo patrocinados por entidades “representativas” de segmentos da população, como UNE, CUT e MTST, que saíram às ruas de Brasília no último dia 29 para depredar prédios públicos e incendiar veículos, a pretexto de protestar contra iniciativas do governo das quais discordam.

As manifestações, feitas no momento em que a grave crise econômica herdada do lulopetismo se mostra especialmente resistente, indicam que duas forças distintas – apesar de compartilharem, a rigor, da mesma raiz antidemocrática –, associam-se para defender seus interesses, tumultuando o ambiente político e desviando o foco e as energias do País da discussão e implementação de um plano de urgente recuperação nacional. Constituem essas forças nocivas à democracia, de um lado, os políticos corruptos e, de outro, os irados políticos sem voto, órfãos do poder, que do desterro em que se encontram transformam vândalos mascarados em seus porta-vozes.

É auspicioso, portanto, que, imbuídos de genuíno espírito democrático, brasileiros tenham saído às ruas, geralmente em grupos familiares, trajando verde-amarelo, para um brado de protesto vigoroso e pacífico contra a corrupção que corrói o aparelho estatal. Corrupção que, produto da mentalidade patrimonialista que sempre esteve presente na gestão da coisa pública, se tornou método político sob a égide do populismo lulopetista, que para se perpetuar no poder juntou os amigos do alheio aos inimigos da democracia.

Essa singular simbiose sobrevive ao banimento do poder do PT. A insistente tentativa – felizmente frustrada – do senador Renan Calheiros, que usa as prerrogativas da presidência do Senado para se blindar nos 11 processos criminais em que está envolvido no Supremo Tribunal Federal (STF), em um deles já como réu, é a demonstração cabal de que os decaídos ainda têm alento. Nas manifestações de domingo, Renan e seus métodos foram claramente repudiados. Mas o réu no STF reagiu com o cinismo de hábito, ao declarar em nota oficial que “o Senado continuará permeável e sensível às demandas sociais”.

Ainda sob o eco da voz das ruas, outra reação absurda foi a do senador Roberto Requião (PMDB-PR), relator do projeto sobre abuso de autoridade que estava parado há anos no Senado. Segundo o senador paranaense, os brasileiros que participaram das manifestações de domingo são “mentecaptos manipuláveis” e acrescentou: “Com pitis ou sem pitis, com histerias e passeatas ou sem, estarei trabalhando para oferecer uma boa proposta de lei”. A julgar pelo destempero com que manifesta seu desapreço pelos cidadãos, é difícil imaginar que o relatório de Requião tenha algo a ver com uma “boa proposta de lei”. O senador paranaense demonstra mais uma vez que lhe faltam serenidade e isenção, atributos indispensáveis aos legisladores.

Serenidade e isenção, aliás, recomendam que este não é o melhor momento para a discussão das matérias que serviram de pretexto para a crise artificial que tumultuou a vida política na semana passada. A Câmara dos Deputados reafirmou as prerrogativas do Poder Legislativo sobre a pretensão de funcionários públicos que agiam corporativamente. Agora, o Congresso Nacional tem outras prioridades: discutir e votar medidas urgentes e necessárias para se promover o indispensável saneamento das contas públicas e, em seguida, a criação das condições que assegurem a retomada do crescimento econômico e, consequentemente, a recuperação do nível de emprego e da renda dos brasileiros. Atualizar a Lei do Abuso de Poder é necessário. Mas não é recomendável fazê-lo com uma faca entre os dentes, como parece ser a disposição de Roberto Requião.

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