Mar de vilanias

Na campanha faltou conteúdo e abundaram, especialmente nesta reta final, baixeza, maledicência e desinformação

O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2018 | 05h00

Campanha eleitoral é a ocasião para que o eleitor conheça candidatos e propostas e decida, de forma livre e responsável, o seu voto. No entanto, a campanha de 2018 teve outro conteúdo e finalidade. Faltou conteúdo e abundaram, especialmente na reta final do segundo turno, baixeza, maledicência e desinformação.

Faltando menos de dez dias para o segundo turno, o eleitor teve de assistir a um baixo golpe publicitário. Um vídeo antigo, gravado meses atrás, em que Eduardo Bolsonaro fazia molecagem com o Supremo Tribunal Federal (STF), foi transformado em prova de uma suposta conspiração antidemocrática. Em vez de tratarem o episódio por seu valor real - um travesso fazendo graça com o que não entende e, principalmente, bancando ter um poder que nunca teve e jamais terá -, autoridades caíram na farsa eleitoral e vieram a público proclamar inflamadas defesas do Poder Judiciário, como se a Suprema Corte estivesse sob ameaça. Deram importância e valor à irresponsabilidade do filho de um candidato, como se ele fosse o delfim de França.

Nas vezes em que o STF e outros órgãos públicos foram de fato ameaçados - como quando foram cercados e, em alguns casos, invadidos por milícias do MST -, não se ouviu nenhum clamor advertindo que “ameaçar o Judiciário era ameaçar a democracia”. Ao contrário, houve quem aplaudisse a ousadia, como se as ações de violência fossem o suprassumo da participação democrática.

Ao eleitor foi apresentado ainda o deplorável vídeo de um tal Carlos Alves, um desconhecido coronel da reserva, no qual, entre agressões verbais, ofendeu e ameaçou a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Rosa Weber. Uma vez que há inequívoca materialidade e autoria do crime contra a honra da ministra Rosa Weber, bastava processar criminal e civilmente o desatinado aposentado. No entanto, o caso recebeu dimensão hollywoodiana, com pedidos de abertura de inquéritos e juras de uma exaustiva investigação, como se Carlos Alves não fosse apenas e tão somente um ex-servidor público de pijamas e como se o tosco vídeo pudesse revelar um complexo esquema para a tomada do poder.

O eleitor viu também o candidato do PT, Fernando Haddad, repassar notícia falsa, porque a suposta informação desmerecia o seu oponente. Sem nenhuma checagem dos fatos, o poste de Lula acusou o general Hamilton Mourão de ter sido torturador durante o regime militar. Confrontado com a verdade, Haddad nem pediu desculpas. Pôs a responsabilidade pelo que disse em outros - “eu dei ao público uma informação que recebi de fonte relevante”, como se mentira vinda de mentiroso verdade fosse.

Outro caso de baixaria na campanha eleitoral ocorreu em Porto Alegre. Há duas semanas, uma jovem afirmou ter sido agredida por três homens, que teriam marcado em sua pele a suástica nazista. O caso teve grande repercussão, pois a agressão teria sido motivada pelo fato de a jovem portar um adesivo de uma bandeira do arco-íris com a inscrição “Ele Não”, em referência ao candidato Jair Bolsonaro. Agora, a Polícia Civil afirma se tratar de um caso de autolesão.

A coroar o show de horrores da campanha, na terça-feira passada foi divulgado pelas redes sociais um vídeo de uma orgia sexual, em que um dos participantes seria supostamente o candidato do PSDB ao governo paulista, João Doria. Apesar de ser uma evidente falsificação, a peça pornográfica foi massivamente compartilhada.

A marca da baixaria e da sordidez ficará na história da campanha eleitoral de 2018. Numa absurda repetição daquilo que de mais nefasto a política nacional já produziu, o eleitor foi insistentemente agredido, ludibriado e manipulado. Apesar das promessas prévias de autoridades, que formaram grupos de trabalho e comissões para combater as fake news, em vez de ser o grande protagonista do processo eleitoral, o cidadão foi convertido em vítima indefesa, em espectador passivo de um grotesco tormento, que algumas autoridades e comentaristas ainda insistem em chamar de espetáculo cívico.

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