Marginal do Tietê, verdades e mentiras

São Paulo teve no dia 8 o maior volume de chuva já registrado em apenas 24 horas no mês de setembro, desde 1943, quando se começou a fazer a medição. Pela primeira vez em quatro anos, o Rio Tietê transbordou, causando transtornos à cidade. Outras regiões do País foram também atingidas pelas águas com tanta ou mais severidade. Mas a evidente excepcionalidade desses eventos não impediu que, de forma oportunista, críticos das obras de ampliação da Marginal do Tietê usassem a imprensa paulista para empreender uma campanha de desinformação sobre a obra, lançando mão de mentiras, insinuações e soluções delirantes. Para o bem do debate público cabe aqui desfazer os falsos mitos propagados por esses supostos especialistas.

Aloysio Nunes Ferreira, O Estadao de S.Paulo

15 de setembro de 2009 | 00h00

As obras da Marginal priorizam o transporte individual em detrimento do transporte coletivo - Quem afirma isso não conhece a via. A Marginal do Tietê é hoje um eixo estratégico para São Paulo e para o Brasil, no transporte de carga, coletivo e particular. É pela Marginal que se tem acesso ao Terminal Rodoviário do Tietê, o maior da América Latina, que atende mais de 60 mil passageiros por dia.

Acusar este governo de não priorizar o transporte coletivo beira o cinismo. Pela primeira vez, São Paulo tem três linhas do Metrô em obras ao mesmo tempo. Até 2010 serão mais de R$ 20 bilhões investidos em transporte sobre trilhos, incluindo a transformação de 160 km de linhas da CPTM para o padrão Metrô.

O mais curioso é que alguns dos críticos da ampliação da Marginal participaram de uma gestão que não só não investiu um centavo no Metrô (ao contrário do que faz hoje a Prefeitura), como foi responsável pela construção dos polêmicos túneis nas Avenidas Rebouças e Cidade Jardim, obras que, além de malfeitas, visavam exclusivamente os usuários de automóveis. Refiro-me, especialmente, ao sr. Roberto Watanabe, ex-subprefeito de Itaquera na gestão Marta Suplicy, que, aliás, aderindo à moda recente de maquiagem de currículos, apresentou-se falsamente aos meios de comunicação como professor da Unicamp, sem possuir qualquer vínculo com a instituição.

As novas pistas aumentarão a impermeabilidade do solo na região - Não é verdade. A área permeável do canteiro central que dará lugar às novas pistas é de 18,9 hectares, o que corresponde a apenas 0,06% da bacia do rio nesse trecho. Essa já é, portanto, uma área quase totalmente impermeabilizada e as novas pistas representam uma perda irrelevante. Em compensação, o Parque Várzeas do Tietê criará uma área permeável mais de 500 vezes maior - 10 mil hectares no total.

Sugerir uma ligação entre as obras da Marginal e os alagamentos da semana passada, após chuvas de intensidade inédita, é zombar da inteligência alheia. A obra está no começo e praticamente não há asfalto novo. Seria um caso curioso de efeito que antecede a causa. Mais ainda: com o início das obras, foram abertas grandes valetas que acabaram funcionando como piscinões, retiveram a água das chuvas e amenizaram a enchente!

Investir no Parque Várzeas do Tietê não vai resolver o problema da permeabilidade, pois ele fica muito longe das áreas que mais sofrem alagamentos - Mais um mito. As áreas que, historicamente, mais sofreram com alagamentos estão a jusante do futuro parque, pois o Tietê corre, desde sua nascente, em Salesópolis, em direção ao centro da capital e, de lá, para o interior. Portanto, boa parte da chuva que cair na região da cabeceira do rio será retida e absorvida pelas novas várzeas, evitando-se reflexos mais agudos na região central. O oposto é que não faria sentido: reter a água depois de ela ter corrido pela maior parte da cidade. A inundação vem sempre rio abaixo.

As árvores retiradas pela obra serão replantadas na Região do Alto Tietê e não na própria Marginal - É um argumento que briga com os fatos. Cerca de 600 árvores foram retiradas dos canteiros da Marginal e outras mil foram transplantadas ao longo da via, às vezes a uma distância de apenas alguns metros de sua localização anterior.

E quanto às novas árvores? Serão 9 mil na própria Marginal - triplicando o número atual de árvores na via - e cerca de 80 mil nos bairros do entorno. São tantas árvores que os subprefeitos da região têm dificuldade de apontar as áreas onde plantá-las. Adicionalmente, mais 63 mil serão plantadas no Parque Várzeas do Tietê. No total, mais de 150 mil novas árvores - todas no Município de São Paulo.

A ampliação da Marginal será inócua enquanto não houver o Rodoanel Norte - Outra mentira. Três grandes obras serão inauguradas pelo governo do Estado em março de 2010, com alto impacto integrado na cidade: a Marginal do Tietê ampliada, o Rodoanel Sul e o prolongamento da Avenida Jacu-Pêssego. Com isso a Marginal do Tietê fará parte de um anel viário que vai desafogar fortemente o tráfego no centro expandido da capital.

Mesmo a inauguração do Rodoanel Norte, ainda sem data prevista, aliviará apenas parcialmente a Marginal, que continuará com sua função estratégica para os deslocamentos de carga, particulares e de transporte coletivo pela Grande São Paulo.

É preciso acabar com a pista expressa da Marginal e criar um parque linear no lugar - Eis um exemplo acabado de proposta mirabolante! Se pudéssemos voltar no tempo e corrigir decisões equivocadas de 50 anos atrás, viveríamos, sem dúvida, numa cidade ideal.

Diariamente, a Marginal do Tietê propicia 1,2 milhão de viagens aos cidadãos. Eliminá-la da paisagem representaria custos astronômicos, de centenas de bilhões de reais, em desapropriações e remoção de população. Mesmo que houvesse meios, sua execução causaria um colapso completo do trânsito em São Paulo, com consequências imprevisíveis para a própria economia do País.

Aloysio Nunes Ferreira é secretário-chefe da Casa Civil do governo do Estado de São Paulo

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