Mario de Andrade

Há 70 anos, em fevereiro, falecia em São Paulo Mario de Andrade. Foi enterrado no Cemitério da Consolação, acompanhado de muitos e, no depoimento de Antonio Candido, "impressionava a tristeza profunda de todos, como se todos sentissem um enorme vazio na cultura do Brasil".

Celso Lafer*, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2015 | 02h04

A irradiação da pessoa, a criativa abrangência da obra e a singularidade do papel que Mario exerceu na vida intelectual brasileira ininterruptamente, a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 até a sua morte, elucidam a força do sentimento do vazio detectado pela sensibilidade de Antonio Candido.

Mario foi muitos num só - "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta", como disse em conhecido poema. Nele a "sabença" do poeta, romancista, contista; do arguto e erudito crítico literário e das artes plásticas; do musicólogo, do precursor estudioso da cultura popular conjugava-se com o sentido da missão que o animava, voltado para a inovação das artes e do pensamento brasileiro. Essa missão teve impacto e influência exercida por meio dos seus escritos, da amplitude única da sua correspondência com seus contemporâneos e os mais novos que manteve, no cultivo da amizade, a literatura próxima da vida e da sua atuação no espaço público. Nesta soube traduzir pensamento e ação quando implantou e dirigiu, de 1935 a 1938, o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo - pioneira iniciativa em nosso país da expansão e incorporação cultural de inspiração democrática.

O modernismo, ruidosamente inaugurado pela Semana de 1922, foi uma ruptura com as convenções do academicismo. Assumiu-se como uma vanguarda, buscando de diversas maneiras a inovação. Representou um movimento no âmbito do qual convergiram três princípios fundamentais, que se complementavam: "o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência nacional" - como observou Mario na sua conferência-avaliação de 1942.

A modernidade é uma palavra em constante busca de significado e o modernismo, no qual se radica, não é uma escola, mas uma linhagem - uma família de afins, presente em vários continentes nas especificidades de distintas culturas. É o que pontuou Octavio Paz, que tanto refletiu sobre as vanguardas literárias, na sua Conferência Nobel. Nela observou, tratando da sua experiência de poeta, que esta busca é uma "quête", uma procura incessante, no sentido alegórico, do graal.

Essa experiência tem alcance mais geral. Dona Gilda de Mello e Souza, com quem aprendi, não só na "palavra afiada" dos seus textos, mas no convívio pessoal, a apreciar a personalidade e a obra de Mario de Andrade, na sua análise de Macunaíma observa que a aventura dessa rapsódia, na qual se mesclam o popular e a alta cultura, é a retomada carnavalizada da Demanda do Santo Graal. É a "quête" do muiraquitã, a pedra mágica de cor verde.

A travessia intelectual de Mario nas suas múltiplas facetas é a procura do muiraquitã da cultura brasileira. Nessa travessia e porque essa busca é tanto individual quanto parte de um movimento coletivo que liderou, com as características da sua personalidade, que em Mario vida e obra se conjugam, iluminando, ao mesmo tempo, a época em que viveu e os debates que a caracterizaram. Daí o interesse e o mérito de um novo livro de Eduardo Jardim que, dando sequência aos seus estudos anteriores, elaborou uma relevante biografia intelectual de Mario de Andrade.

A chave explicativa do livro de Eduardo Jardim é a análise de certas tensões recorrentes que se desdobram na vida e na obra de Mario, atuando como dicotomias complementares, instigadoras do seu percurso. Destaco, entre as apontadas por Jardim, impulso lírico/inteligência crítica, nacional/universal, cultura letrada/cultura popular, preservação da individualidade/apelo coletivo, inovações formais/exigências materiais do fazer artístico. Essas tensões, nas suas criativas interações, foram experienciadas por um ser de muitas facetas que lidou com os conflitos entre a "vida de cima", consciente e elevada, e a "vida de baixo", com suas sombras e seus instintos, como disse em carta a Oneyda Alvarenga. Ilustrativo desses conflitos, como destaca Jardim, é a franqueza da sua avaliação pessoal a respeito da complementaridade dos seus dois retratos, o de Portinari e o de Segall, em carta a Henriqueta Lisboa. No de Portinari apreciou o olhar do amigo que captou com técnica e expressou com arte a sua bondade. No de Segall reconheceu, com desconforto, que tinha destacado na argúcia da sua mirada "o mais sorrateiro dos seus eus".

O ambiente da sua família e da sua casa, a cidade de São Paulo, onde nasceu em 1893 e viveu a maior parte da sua vida (a exceção são os difíceis anos no Rio de Janeiro, de 1938-1941), os amigos da Semana e dos anos iniciais do modernismo fizeram de Mario um ser paulista. São Paulo é a sua querência, muito presente na sua poesia, desde Pauliceia Desvairada (1922) até o fecho da sua obra poética, que culmina com Meditação sobre o Tietê (1944-1945).

Mario, no entanto, não era bairrista. Identificou-se com o Brasil. O tema da brasilidade, sem petrificações zelotistas, permeia a sua obra. Como pontua Eduardo Jardim, Mario de Andrade sublinhou o caráter unitário da entidade nacional, desgeografizando, e não localizando o espaço da aventura de Macunaíma. Recriou, na tessitura da sua rapsódia, manifestações culturais de várias regiões do País, mesclando de maneira própria o popular e o erudito. Operou nesse romance, como na sua obra e na vida, à maneira de "um tupi tangendo um alaúde". Esse verso premonitório de Pauliceia Desvairada aponta, na lição de dona Gilda, para a criativa complementaridade das interações do Brasil com o mundo que singularizam a dinâmica da sua obra e da sua atuação.

*PROFESSOR EMÉRITO DA USP, É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E MEMBRO ELEITO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

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