Mau humor na economia

Se o mau humor do empresário prejudica o desempenho da economia, todos os brasileiros têm mais um forte motivo para se preocupar - no caso do governo, um motivo eleitoral. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) caiu em julho pela sétima vez consecutiva e chegou ao menor nível desde abril de 2009, segundo informou ontem a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Foi mais uma confirmação de um estado de espírito dos mais sombrios. No dia 18, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) havia divulgado seu Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei), também apurado em julho. Foi o menor valor da série iniciada em janeiro de 1999.

O Estado de S.Paulo

30 Julho 2014 | 02h05

O leitor pode escolher a série de sua preferência. Estenderá a comparação até janeiro de 1999, momento de uma grave crise cambial, ou abril de 2009, quando o Brasil começava a sair de uma recessão iniciada no mundo rico, no ano anterior, com o estouro de uma bolha financeira. A escolha é livre, mas a conclusão é inescapável: depois de mais um semestre muito ruim, os dirigentes da indústria ainda esperam dificuldades até o fim do ano.

Com mais um semestre de estagnação, a presidente Dilma Rousseff completará quatro anos de um mandato desastroso para a atividade industrial. Segundo a última sondagem da FGV, o Índice de Confiança da Indústria caiu 3,2% de junho para julho e chegou a 84,4 pontos. Esse indicador varia de zero a 200 e valores acima de 100 apontam expectativa de melhoras. A média histórica dos últimos cinco anos é 105,2, na série com ajuste sazonal. Mas até o ligeiro otimismo apontado por esse número já sumiu há muito tempo. Em todos os meses desde agosto do ano passado o ICI ficou abaixo de 100.

Dois componentes entram na formação desse indicador: um Índice de Situação Atual (ISA) e um Índice de Expectativas (IE). O primeiro caiu de 90,1 pontos em junho para 85,8 em julho. O outro, já abaixo de 100 em julho do ano passado, recuou de 84,4 para 82,9 na apuração recém-divulgada.

"O resultado de julho acende uma luz amarela em relação ao terceiro trimestre", comentou o pesquisador Aloísio Campelo Jr., superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV. A demanda, segundo ele, continua sendo um entrave importante ao crescimento e foi o fator de maior peso para a piora da avaliação do quadro atual.

Ainda sobrou um leve sinal positivo, de 105,4 pontos, no quesito "tendência dos negócios nos próximos seis meses", mas esse componente também piorou, com queda de 7,6% em relação ao nível de junho. No conjunto, o Índice de Expectativas ficou na área negativa (82,9%), com redução de 16,35% desde julho do ano anterior, na série com ajuste sazonal.

As sondagens da FGV e da CNI sobre a confiança dos dirigentes de indústrias combinam com o cenário geral das projeções econômicas.

Na pesquisa Focus, realizada semanalmente no mercado pelo Banco Central (BC), a mediana das projeções de crescimento econômico chegou a 0,9% na sexta-feira passada. O mesmo levantamento apontou a expectativa de contração de 1,15% do produto industrial. Na última semana, a CNI publicou suas novas estimativas dos principais indicadores econômicos. O novo quadro inclui crescimento de apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB), expectativa pouco melhor que a apurada na pesquisa Focus, e contração de 0,5% do produto industrial. O Ministério do Planejamento cortou de 2,5% para 1,8% sua projeção de aumento do PIB.

O mau humor também chegou ao comércio. Em julho o indicador de confiança dos comerciantes da cidade de São Paulo passou para o terreno negativo. Caiu 2,5%, chegou a 98,6 pontos e ficou 5,4% abaixo do nível de julho de 2013. A informação foi divulgada ainda na terça-feira pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Inflação alta, vendas em queda e juros elevados são as causas principais do pessimismo, segundo a assessoria econômica da entidade. Como explicar a coincidência de tantas projeções ruins? Por suas declarações, a presidente Dilma Rousseff ainda se recusa a reconhecer uma economia emperrada e com problemas graves.

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