Mau humor no mercado

De mal a pior: esta é a nova projeção do mercado financeiro para a economia nacional, neste ano, embora o balanço do primeiro trimestre tenha sido um pouco menos negativo do que estimavam os economistas do setor privado e da academia. O Produto Interno Bruto (PIB) de janeiro a março deste ano foi 0,2% menor que o dos últimos três meses de 2014, segundo informou na sexta-feira o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Respeitados especialistas haviam apostado numa contração maior, entre 0,5% e 1%. Na mesma sexta-feira o Banco Central (BC) coletou em cerca de 100 instituições, como faz semanalmente na pesquisa Focus, as avaliações do cenário econômico. Alguns analistas podem ter ficado um pouco menos pessimistas depois do relatório oficial, mas a tendência dominante foi outra. Pelos novos cálculos, o PIB deve encolher 1,27% em 2015. Uma semana antes a expectativa era de um resultado negativo de 1,24%. Quatro semanas antes a redução estimada pelo pessoal de instituições financeiras e consultorias era de 1,18%.

O Estado de S. Paulo

02 Junho 2015 | 03h00

As projeções do desempenho industrial foram mantidas. Segundo a nova pesquisa Focus, a produção da indústria deve ser 2,8% menor que a de 2014. O mesmo número havia aparecido na consulta da semana anterior. Quatro semanas antes, no entanto, a estimativa, um pouco mais sombria, era de uma redução de 2,8%.

Sem tentar esconder os fatos, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, reconheceu os problemas – todos ou quase todos herdados do mandato anterior – e prometeu alguma recuperação até o fim do ano. Antes disso, o presidente do BC, Alexandre Tombini, em depoimento no Congresso, havia mencionado, embora com palavras mais suaves, o fiasco da política econômica dos últimos anos. Os estímulos adotados como resposta à crise de 2008, argumentou, simplesmente haviam deixado de produzir os efeitos anunciados pelo governo.

Ele se referiu explicitamente aos dois anos finais do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, mas, quanto a esse ponto, foi um tanto moderado. A chamada política contracíclica poderia ser justificável, de fato, até 2009 ou 2010, mas depois disso foi contraproducente. Os desastrosos números do período entre 2011 e 2014 provam isso claramente.

Esse fracasso é bem conhecido pelos economistas do mercado. Eles acompanharam a deterioração dos indicadores econômicos e, de modo especial, a redução do potencial de crescimento do País. A insuficiência do investimento, a baixa produtividade e a fragilidade crescente da indústria foram evidenciadas, nos últimos quatro anos, pelos números do comércio exterior e também pelo desajuste inflacionário entre a demanda e a capacidade de oferta.

Nenhum desses problemas foi atacado com seriedade. Dificilmente será, antes de algum avanço no recém-iniciado conserto das finanças governamentais. O investimento necessário ao ganho de eficiência depende de confiança na gestão e nos planos do governo. Além da arrumação das contas públicas, também será indispensável uma redefinição da política de crescimento. Ao reafirmar o compromisso com o protecionismo e com a política de conteúdo nacional, a presidente da República transmite a mensagem menos animadora. 

A reação projetada para o próximo ano é muito modesta e, de fato, insuficiente para zerar a queda estimada para 2015. O PIB deve crescer 1% e a produção industrial, 1,5%, segundo os cálculos coletados pelo BC.

Os demais desajustes, de acordo com a mesma pesquisa, continuarão muito grandes e só serão eliminados lentamente. Em um mês a inflação estimada para 2015 subiu de 8,26% para 8,39%, muito acima do limite oficial de tolerância (6,5%). Também no intervalo de quatro semanas a projeção para 2016 pouco melhorou, passando de 5,6% para 5,5%. Os dirigentes do BC, no entanto, continuam prometendo levar a inflação, até o fim do próximo ano, à meta, isto é, à taxa de 4,5%. Se isso ocorrer, a inflação ainda ficará bem acima dos padrões internacionais, prejudicando os consumidores e o poder de competição do Brasil.

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