Medo das palavras

Em boa parte, trocar nomes serve a maquiar um problema que não se consegue resolver

Pedro Cavalcanti*, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2018 | 03h00

Trocar o nome das coisas é uma maneira eficiente de alterar a realidade? Civilizações antigas, regidas pelo pensamento mágico, acreditavam firmemente que sim. Nós, aparentemente, também.

Da idade da pedra ao computador, muita coisa mudou, mas as crenças escondidas no lado escuro da alma continuam vivas onde sempre estiveram.

Nomes têm força e vida própria. A vaga politicamente correta, com sua mistura de generosidade e hipocrisia, veio confirmar o que já se sabia. Já não há ou não deveria haver surdos, cegos, aleijados, anões e gigantes. São todos portadores de deficiências auditivas, visuais, físicas ou de estaturas diferenciadas. Quem está dormindo numa calçada não é mais um morador de rua, mas alguém que se encontra em situação de rua.

O método apresenta algumas vantagens evidentes. Morar numa residência precária numa comunidade soa muito melhor do que morar num barraco numa favela. Além do que, sai muito mais barato do que investir em saneamento básico.

Compreende-se facilmente o interesse em mudar o nome de doenças cujo diagnóstico se confunde com um insulto, caso da deficiência de tiroxina, batizada nos manuais psiquiátricos de cretinismo. Compreende-se, igualmente, que leprosos ou lazarentos prefiram sofrer de hanseníase a lepra. Já não se vê que ganham os maníaco-depressivos em serem tratados de portadores de síndrome bipolar.

Em boa parte, trocar nomes serve para maquiar um problema que não se consegue resolver. Técnica antiga e que não se restringe a nomes parece ter chegado ao apogeu com a proposta atribuída ao então diretor de Turismo e Certames do Estado da Guanabara, Mario Saladini, de pintar as favelas cariocas. Foi logo ridicularizada em 1960 pelo samba Favela Amarela, de grande sucesso na voz de Araci de Almeida: “Pintem a Favela / Façam aquarela da miséria colorida”.

O terror provocado pelo nome manicômio, acarretando pelo mundo o fechamento dos estabelecimentos especializados, teve como consequência o abandono dos loucos pelas ruas.

Mas, apesar dos riscos reais que pode trazer e do ridículo eventual a que está sujeita, a maquiagem, sobretudo a maquiagem verbal, segue viva e atuante. Aderimos a ela sem perceber e sem pedir maiores explicações.

Recentemente, deixamos de lado a degradante expressão suborno de políticos. Poderíamos recorrer a um dos inúmeros sinônimos à disposição, desde a vulgar engraxada até o tradicional e divertido jeitinho brasileiro. Optamos, afinal, pela propina, substantivo incolor e aparentemente corriqueiro, cuja origem os dicionários atribuem à taxa paga na matrícula em certas universidades portuguesas. A manobra tem, entre outros, o efeito de retirar a influência nefasta ligada a certos nomes que por contágio verbal ameaçam todos os que o pronunciam.

É costume que se perde na noite dos tempos. Os espíritos dos vivos e dos mortos vagueiam pelo mundo à espera dos chamados voluntários ou involuntários. Muitas vezes a precaução parte de um bom sentimento. Não se pode pronunciar o nome de uma pessoa morta recentemente para não perturbar o seu repouso – quando necessário, convém acrescentar uma expressão protetora: o defunto, o finado, o falecido meu marido que está na santa paz, meu pai, que Deus o tenha em sua companhia. Freud, em Totem e Tabu, anota a imensa área geográfica dessa tradição, que alcança australianos, polinésios, siberianos, malgaxes, indígenas Guaicurus do Paraguai, sem falar das populações ibero-americanas.

De maneira geral, no entanto, a intenção é outra. Os gregos não pronunciavam ou pronunciavam o menos possível o nome de Átropos (a morte) temendo que a terrível deusa atendesse ao apelo involuntário. Entre os romanos, lembra Câmara Cascudo, não se falava no lobo porque ele podia aparecer.

Naturalmente, o nome do diabo é o mais temido. “Falou no diabo, aparece o rabo.” “Falar no mau, preparar o pau.” O demônio, como se sabe, tem o péssimo costume de atender não só às invocações regulamentares à meia-noite nas encruzilhadas, mas a qualquer hora em que seu nome é pronunciado por descuido ou engano. Daí talvez a multidão de sinônimos pelos quais ele pode ser nomeado em Portugal e no Brasil: o carocho, o azango, o careca, o coisa-má, o mafarrico, o tição-negro, o descaminhador, o malasartes, o zarapelho, o fusco, o cornudo, o belzebu, o porco-sujoimundo, o esmolambado. Ou, ainda, Pêro Botelho, cão, bode, maldito, excomungado e por aí vai.

Não se sabe a razão pela qual o diabo acorre quando se chama pelo nome próprio, mas ignora os apelidos. Da mesma maneira, é possível enganá-lo com artifícios aparentemente simplórios. Basta, por exemplo, acreditavam certas tribos indígenas, mudar o nome de uma pessoa atacada por doença grave para que o espírito malfazejo que a atacou se desoriente e a deixe em paz.

Mudar os nomes tem ainda a vantagem de evitar que as pessoas voltem do além para se vingar. Entre os Tupinambás, quando um prisioneiro era executado, deviam mudar de nome, além do próprio prisioneiro, o seu captor, o que o houvesse alcançado na corrida ou o havia dominado antes que fosse amarrado, a mulher, irmãos, irmãs e primas do “matador” – em breve, todos os que haviam participado de uma maneira qualquer da morte do cativo ou estavam ligados por parentesco ao matador.

Se algo parecido fosse empregado contra todos os que a Lava Jato mandou para a cadeia, imagine-se o pandemônio que se instalaria em certos círculos políticos.

Felizmente, a técnica da mágica politicamente correta para resolver problemas reais tem seus limites conhecidos desde os tempos da tragédia de Verona, quando Shakespeare indagava pelos lábios de Julieta a Romeu o que há num nome. Para concluir que uma rosa com outro nome teria o mesmo perfume.

De forma análoga poderia ser dito que favelas, surdez, paralisia, loucura, com outros nomes, têm os mesmos efeitos devastadores. Mas nunca se sabe, o leitor, como tantos outros mundo afora, talvez prefira evitar pronunciar o nome “daquela doença”. Não terá o menor efeito na prática, mas “pelo amor de Deus, vira essa boca para lá”.

*JORNALISTA E ESCRITOR

E-MAIL: PRA@UOL.COM.BR

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