Medos e crenças de Natal (ou 3 cenas de ano-novo)

Cena 1.

Eugênio Bucci, jornalista, é professor da ECA-USP e da ESPM, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2011 | 03h06

Na Rua Cerro Corá, esquina com a São Guálter, uma gigantesca vitrine atropela a visão dos passageiros de ônibus e automóveis. À noite, ela brilha feito uma supertela de cinema em três dimensões. Lá dentro, dezenas de homens e mulheres, aparentemente jovens, transpiram e trepidam em cima de esteiras elétricas. Ali funciona uma academia de ginástica, toda envidraçada.

A luz intensa do salão de exercícios, refletida no suor dos corpos, delineia os bíceps subindo e descendo, o vaivéns sincronizado de braços e pernas, as saboneteiras femininas, as fitas multicoloridas a prender os cabelos de quem os tem. A mercadoria oferecida na vitrine viva é a saúde corporal, essa combinação variável entre vitalidade, vigor, forma física, beleza plástica e disciplina militar. Às vésperas do ano-novo, é um convite à mudança de hábitos para os sedentários que estejam passando por ali. 2012 vai começar, é tempo de beber menos, fumar menos, sofrer menos e malhar mais. Não há quem passe por ali sem considerar o desejo de fazer parte daquela sensualidade muscular em exibição noturna.

As academias de ginástica vendem a imagem dos corpos dos clientes atuais aos potenciais clientes futuros, prometendo transplantar os primeiros nos segundos. Lá dentro, a gente pode comprar um novo corpo a prestações. Correndo sem sair do lugar, como os modelos vivos na vitrine, a gente chegará ao idílio do vigor físico e da beleza. É, de fato, intrigante. Dentro da vitrine, a relação entre esforço e movimento é contraditória. Os clientes ali correm, transpiram, ofegam e não avançam um único centímetro. Na rua, a gente vive o mesmo paradoxo, mas com o sinal invertido: sentados no carro (ou no circular), nós não movemos um músculo, mas andamos.

O que pretendem os atletas da vitrine? Fugir da velhice, talvez? Nós tememos a velhice, talvez mais do que o abandono, e olhamos para aquela vitrine pensando no refrão típico desta época de festas: eles têm "saúde para dar e vender". Talvez a gente possa comprar um pouco dessa saúde toda. Sonhando com isso, a gente exorciza o pavor de encarquilhar um dia. E promete muito suor para o ano que entra. A gente promete que, no ano que entra, vai correr muito sem sair do lugar.

Uma das definições de neurose é justamente esta: queimar energia psíquica sem fazer movimento real nenhum, como um parafuso girando em falso. A academias são equipadas com esteiras cuja função primordial é produzir passos em falso - e nós, os sedentários com a cabeça cheia de problemas e de medos, suspiramos de desejo por elas.

Cena 2.

A Cerro Corá é um prolongamento indireto e longínquo da Avenida Paulista, o festejado cartão-postal da cidade de São Paulo, que acaba de ser tomado pelas multidões. Não se trata de uma passeata de estudantes, que essas já não reúnem quase ninguém. Não se trata da São Silvestre, que essa vai ser desviada. Não se trata, ainda, de uma filial paulistana do movimento "occupy" isso e mais aquilo, que já "ocupou" a Praça Tahrir, no Cairo, as ruas de Barcelona e até mesmo Wall Street, em Nova York. A Paulista ficou superpovoada de transeuntes que não querem protestar contra coisa nenhuma: eles foram até lá para ver Papai Noel. Os taxistas reclamam. O lugar está intransitável até as 2, 3 horas da manhã. A avenida está repleta de povo, como diziam os editoriais de antigamente.

Sede de bancos triliardários, a Paulista fantasiou-se de árvore de Natal, com luzinhas que piscam e repiscam em cascatões faraônicos, bonecos descomunais que se movem como brinquedos de pilha, canções gingolbélicas emanando do concreto. As multidões afluem, em romaria. Parecem crer que da especulação financeira emergirá o espírito natalino, que o dinheiro vai emular o congraçamento universal.

Em 1843, Charles Dickens escreveu Um Conto de Natal, uma de suas obras mais famosas. O protagonista de Dickens é o senhor Scrooge - que inspirou o Tio Patinhas de Walt Disney -, um adorador do vil metal, insensível e sovina, que, depois de ser apavorado pelos fantasmas do castigo eterno, descobre o gozo da caridade e vira um Papai Noel compulsivo.

Os peregrinos da Avenida Paulista reeditam o mito de Scrooge. Talvez creiam em almas boas de banqueiros arrependidos. Na Paulista destes dias natalinos, a humanidade passeia de mãos dadas. Pede de presente um pouco de compaixão, embora saiba que a banca não lhes dará descontos no extrato de dezembro. A caridade também pode ser uma forma de neurose, para quem dá e para quem recebe. Para os que têm "muito dinheiro no bolso" ela aplaca o medo da fogueira do inferno. Para os que nada têm ela aplaca o medo da miséria.

Cena 3.

Num campo intermediário entre a Cerro Corá e a Paulista, estendem-se as lápides cafonas do Cemitério do Araçá, na Avenida Doutor Arnaldo. O fluxo de caixões não dá trégua. As guerras admitem o armistício de Natal, mas a morte não dá descanso aos coveiros, de tal sorte que, a meio caminho entre os banqueiros fantasiados de Papai Noel e os corpos atléticos em exposição na vitrine, viúvas e órfãos choram diariamente no Araçá.

O lado bom das neuroses é que elas têm um fim: o túmulo. Numa entrevista concedida a George Sylvester Viereck em 1926, na sua casa de verão em Semmering, nos Alpes austríacos, Sigmund Freud, já septuagenário, falou: "O desejo derradeiro da vida é a sua própria extinção". Não apenas seguimos para a morte, como, de acordo com Freud, nós a desejamos. "O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo", disse ele.

Entre o culto do corpo impossível e a celebração do capital caridoso, a gente corre em falso atrás de luzinhas coloridas, para nunca se lembrar do recado escuro do Araçá, o lugar onde Papai Noel não existe.

Não obstante, feliz 2012.

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