Meias-palavras não bastam

Se os sinais de que falta determinação a Temer para não iniciar sua trajetória por onde Dilma acabou a dela vinham pondo nuvens no horizonte, a manobra do STF contra Eduardo Cunha, como de hábito, empurrou para um pouco mais longe a margem do brejo da incerteza em que vamos atolados.

Fernão Lara Mesquita*, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2016 | 03h00

Cunha é o que o Brasil inteiro sabe que é. Mas só metade disso é mencionada em voz alta neste país onde coragem política e honestidade intelectual são mais escassas que água no deserto e, cada vez mais, a única diferença entre os culpados por mamar em privilégios que custam a miséria em que este país está e/ou roubar ostensivamente o dinheiro apartado “para mitigá-la” está em pôr ou não tudo isso também a serviço de uma conspiração contra a alternância no poder.

Chegou a incomodar muito um Brasil à beira do afogamento a perspectiva de Cunha vir a tornar-se presidente na ausência do vice. Mas o caso ficou “resolvido” pela constatação de que, havendo lei que proíbe réus de ocupar a Presidência, o impedimento era ponto pacífico. A outra metade do que o Brasil inteiro sabe que Cunha é, mas ninguém tem coragem de afirmar em voz alta, é “o bandido certo, no lugar certo, na hora certa”, ou seja, como o ex-deputado Roberto Jefferson notou com pleno conhecimento de causa no Roda Viva, só ele está à altura do jogo sujo do PT e seus “laranjas” do PSOL e do PCdoB para fazer deste país uma imensa Venezuela. Não é por acaso que, apesar da perseverança no crime, Dilma e ele escapem sempre por entre os dedos tanto da lei penal quanto da política. É que jogam com as mesmas armas, a mesma ausência de limites e o mesmo tipo de vendilhão de “governabilidade”. Só que, pela primeira vez na História deste país, apareceu alguém que usa truques sujos com mais competência que o PT. PSDB e cia. são meninas de colégio de freiras perto desse pessoal. A verdade cristalina que precisa ser afirmada claramente, portanto, é que tudo o que hoje se sabe sobre Cunha só foi exposto porque ele estava ganhando a parada contra o PT, e não porque tenha em sua ficha qualquer coisa que o deslustre mais que todos os petistas presos e por prender ou os renans calheiros da vida atrás dos quais o PT se escuda.

Ao atropelar Teori Zavascki, que guardava há quase seis meses queixa da PGR contra Cunha à espera de que findasse a contenda no Legislativo em que o Judiciário não devia nem legalmente podia se meter na noite de 4/5, Lewandowski forçou-o a atribuir à ação uma súbita “urgência”. O resto “o tempo da política e da mídia” fizeram, como Lewandowski sinalizou ao negá-lo antes que se lhe perguntasse, gerando liminar vazada exclusivamente em adjetivos, sem base técnica que a sustente ou qualquer lei ou esboço de tratamento às consequências que vai produzir. E lá vai um Brasil requerendo reformas pesadas e urgentes de volta aos braços de uma Câmara com 29 “donos” soltos.

O STF que patrocinou a manobra, recorde-se, é o mesmo que atirou o País às piranhas da “governabilidade” em 2006, quando derrubou a cláusula de barreira dos partidos em 5% dos votos nacionais e 2% em 9 Estados, arrancada a duras penas do Congresso. Aplicada, teria tirado do páreo 22 dos 29 partidos então inscritos no TSE já no 2.º governo Lula. Mas a viabilização da política não era o que o PT tinha em vista. Bem ao contrário. De lá para cá, ao atribuir parcelas do Fundo Partidário a cada deputado eleito, junto com o tempo de TV, o STF fixou um “valor nominal” para cada uma dessas “mercadorias”. Na expectativa de minar toda forma de resistência organizada ao seu projeto hegemônico, Lula e o PT, com os préstimos do STF, construíram, portanto, milímetro por milímetro, o caos político que está a um passo de destruir o Brasil, enquanto saqueavam o Estado para executá-lo.

Declarada a “inconstitucionalidade” de pôr ordem no bordel da política partidária, arrematada pela recente decisão do mesmo STF de submeter os plenários da Câmara e do Senado às “lideranças” em detrimento das maiorias para pôr o impeachment de volta nas mãos de Leonardo Picciani, o Rei das Pedras da Cidade Olímpica, par perfeito de Renan Calheiros, o “goleiro” do impeachment plantado no Senado, das quais o voto do plenário o tinha tirado, o sucesso das operações comerciais do lulopetismo com vista ao poder eterno passou a depender, como notou o ministro Dias Toffolli, único a denunciar o penúltimo golpe do STF no sistema representativo brasileiro, de “dialogar” suficientemente com 15 indivíduos num colegiado de 28.

Não funcionou para barrar o impeachment por enquanto, mas essa história ainda não acabou...

O resultado geral é que tudo isso completou a obra de inviabilização do Brasil iniciada com a Constituição de 1988, que, ao consagrar o privilégio outorgado pela baixa política como “direito adquirido”, criou a moeda básica com que mestre Lula tratou de comprar seu esquema absoluto de poder contratando a desarrumação absoluta das finanças públicas que a Lei de Responsabilidade Fiscal pisoteada por Dilma conseguiu deter por alguns anos.

O resultado é que não tem jeito simples de consertar o que fizeram com o Brasil. Vai doer. Vai demorar. E muito. A descrição didática de como chegamos a isso, bilhão por bilhão, ainda que evitando o tom revanchista, é parte indescartável do mapa da saída. O tamanho da crise e da dor do povo serão os únicos trunfos de Temer. É a ele e só a ele que um governo de salvação nacional tem de se dirigir com a verdade, nada mais que a verdade, e muito, muito didatismo, negociando ao vivo cada costura política do processo. Se convencer o povo da sinceridade de seu diagnóstico e de seus propósitos, mostrando onde foi parar e para onde deveria retornar o dinheiro desviado da sustentação da economia nacional para a sustentação de um esquema de poder, o Congresso virá atrás e estará transferido a quem atrapalhar queira o risco de postar-se à frente das saídas que a multidão dos desesperados comprar como as possíveis.

Nota: escrito antes que Waldir Maranhão, posto onde está pela ação de Lewandowski, tentasse o golpe contra o impeachment.

*Fernão Lara Mesquita é jornalista e escreve em www.vespeiro.com

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