Melhor não festejar

Como as boas notícias sobre a economia brasileira andam mais escassas que chuva em São Paulo, o ministro da Fazenda poderia ser tentado a alardear a melhora das projeções do mercado financeiro para o crescimento econômico e as contas externas. Refletindo um inesperado surto de otimismo, subiu de 0,24% para 0,28% a mediana das projeções para o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. A estimativa para 2015 continuou em 1%. Se fosse o caso de escolher, o ministro quase certamente daria preferência aos números indicados pelo Fundo Monetário Internacional - 0,3% para 2014 e 1,4% para o próximo ano. Mas isso poderia ser constrangedor, porque na semana passada ele rejeitou enfaticamente essas previsões, numa entrevista no Brasil e numa declaração enviada a Washington.

O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2014 | 02h04

Diante disso, talvez o mais prático fosse mesmo festejar a melhora de 0,04 ponto na mediana das apostas do mercado - contando, naturalmente, com alguma falha de memória do público. Ele também poderia confrontar a situação do Brasil com as condições, bem piores, da Argentina e da Venezuela, os únicos países sul-americanos com perspectivas mais feias que as do Brasil. Mas os vizinhos poderiam considerar o comentário antidiplomático e incompatível, é claro, com a imagem pacifista de quem recomenda diálogo com os degoladores do Estado Islâmico.

As novas projeções para as contas externas também são mais positivas que as da semana anterior, mas igualmente difíceis de festejar. O pessoal do mercado aumentou de US$ 2,41 bilhões para US$ 2,44 bilhões o saldo comercial estimado para o ano e de US$ 7,24 bilhões para US$ 7,27 bilhões o resultado previsto para 2015.

Se a nova estimativa estiver certa, o superávit comercial será menor que o de qualquer outro ano desde 2001, quando as contas foram fechadas com um excedente de US$ 2,65 bilhões. Depois disso, o excedente anual foi sempre superior a US$ 10 bilhões e, em vários anos, a US$ 40 bilhões, até despencar para US$ 2,55 bilhões em 2013.

A outra melhora no panorama externo ocorreu no saldo em conta corrente - a soma das balanças comercial, de serviços, de rendas e de transferências unilaterais. O mercado reduziu de US$ 80,5 bilhões para US$ 80 bilhões o déficit previsto para 2014. Como nos outros casos, é uma melhora insignificante, mas, na falta de algo mais substancioso, o governo pode considerá-la uma alteração muito bem-vinda.

Mas os economistas do setor financeiro e das consultorias continuam calculando em US$ 60 bilhões o investimento estrangeiro direto destinado ao Brasil em 2014. Serão necessários, portanto, mais US$ 20 bilhões para compensar o déficit em conta corrente. Terá de ser, como já foi em 2013, dinheiro proveniente de operações financeiras mais voláteis, menos produtivas e menos confiáveis que o investimento direto, normalmente um fator de fortalecimento da economia receptora.

Enfim, alardear as pequenas mudanças positivas nas projeções coletadas pelo Banco Central, na pesquisa Focus, envolveria ainda o risco de chamar a atenção para outros detalhes da sondagem. Exemplo: a mediana das estimativas da inflação oficial, medida pelo IPCA, subiu de 6,32% para 6,45%, aproximando-se, de novo, do limite da margem de tolerância. Isso ajudaria o cidadão mais distraído a recompor o quadro geral da economia brasileira - baixíssimo crescimento, inflação alta e muito longe da meta de 4,5% e contas externas fracas e dependentes de financiamento de qualidade discutível, dada a insuficiência do investimento estrangeiro direto.

Além do mais, o cidadão mais distraído ainda seria levado a notar um detalhe tão importante quanto negativo: o mercado aumentou de 2,14% para 2,16% a contração do produto industrial. O fraquíssimo crescimento econômico de 0,28% - desempenho apenas superior, na América do Sul, aos da Argentina e da Venezuela - inclui mais uma contração da atividade industrial, a principal fonte de criação de empregos decentes. Talvez o mais prudente, para o governo, seja deixar esses números para lá.

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