Melhora lenta e ameaçada

Vive-se melhor no Brasil, mas a melhora é lenta em várias áreas e a estagnação da economia já mancha importantes indicadores socioeconômicos. Mais da metade dos brasileiros está conectada à internet, cresce o número de famílias que dispõem de carro próprio, o padrão demográfico se aproxima cada vez mais do observado nos países desenvolvidos, a renda real do brasileiro continua a crescer. Mas é muito alto o índice de domicílios não atendidos por rede de esgotos, o que mantém em permanente risco a saúde de milhões de crianças, o processo de redução das desigualdades sociais estagnou e o desemprego voltou a subir.

O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2014 | 02h04

Este é, de modo sintético, o retrato do Brasil em 2013 apresentado pela Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A correção de alguns dados essenciais por motivos não claramente explicados - foram cometidos erros "extremamente graves", justificou-se a direção do IBGE - não altera o quadro geral. É cedo para dizer que seus resultados negativos são o início de uma tendência, mas eles deixam dúvidas sobre a eficácia de algumas políticas públicas que, até há pouco, produziam resultados destacados.

Embora a renda real do trabalho tenha registrado no ano passado a nona alta anual consecutiva, a desigualdade de renda praticamente parou de cair. De 2012 para 2013, o Índice de Gini - quanto mais baixo, indica menor concentração de renda - passou de 0,496 para 0,495. A desconcentração ocorre desde 1996, quando os efeitos do Plano Real sobre os ganhos das pessoas de menor renda ficaram nítidos. No ano passado, porém, os que ganham mais se apropriaram de uma fatia maior do rendimento total.

Uma das hipóteses para a redução da desconcentração, que vinha sendo acentuada desde 2005 - apontada pela economista Sônia Rocha, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets) -, é a elevação dos salários dos trabalhadores mais qualificados, pois há escassez de mão de obra nessa faixa do mercado.

A despeito da alta do desemprego geral (ficou em 6,5%), o aumento da formalização do mercado de trabalho é notável. Em 2013, o porcentual de empregados com carteira assinada alcançou o recorde de 65,2% do total - 9,9 pontos porcentuais maior do que o de 2001. Essa melhora poderia enfraquecer a hipótese da economista do Iets para o aumento da concentração de renda. Mas os dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que as contratações com carteira assinada concentram-se em setores que empregam pessoal menos qualificado e, por isso, pagam salários menores. A indústria, onde estão os empregos de melhor renda e com maior exigência de qualificação da mão de obra, vem demitindo.

Cai o número de analfabetos, mas é alta a porcentagem de brasileiros com nível de escolaridade que caracteriza o analfabetismo funcional. Essa condição os impede de desempenhar tarefas mais complexas que o mercado demanda.

Esse problema aponta para a necessidade de mudanças no sistema de ensino. Também a persistente redução proporcional do número de alunos nas escolas públicas (76,5% do total de estudantes) indica a necessidade de reavaliação das políticas oficiais de educação.

A redução proporcional da população jovem e o aumento da população idosa tornam o padrão demográfico brasileiro mais parecido com o dos países desenvolvidos. Mas outros nos distanciam do mundo rico.

Bens materiais mais modernos e serviços de comunicação e entretenimento são cada vez mais frequentes nos lares dos brasileiros, como mostra a evolução do número de domicílios que dispõem de carros, serviços de internet e diferentes aparelhos eletrodomésticos. Mas as condições de habitação não melhoram no mesmo ritmo. É lento o crescimento do número de domicílios atendidos por rede pública de esgoto - 41% das casas não dispõem desse serviço, indispensável para reduzir a ocorrência de moléstias responsáveis por grande parte das mortes de crianças no País. O governo não tem conseguido romper a inércia das políticas de saneamento básico.

Mais conteúdo sobre:
Editorial Estadão Pnad

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.