Melhora lenta

O crescimento da população já é igual ao dos países desenvolvidos, mas muitos de seus problemas sociais, embora menos agudos do que no passado, o fazem mais parecido com os países pobres. Há cada vez mais mulheres do que homens. Regiões que até a década de 1990 atraíam grande contingentes de migrantes agora crescem menos do que a média nacional. Quem deixa sua terra natal em busca de melhores oportunidades de trabalho prefere as regiões em que o agronegócio impulsiona novos polos econômicos. Os brancos já não são maioria na população deste país cujos habitantes se declaram cada vez mais pretos, pardos, amarelos e índios (designações utilizadas pelo órgão oficial que coletou as informações). É um país que progride, mas num ritmo lento demais, o que significa a persistência de vários de seus piores problemas ainda por muitos anos.

, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2011 | 00h00

Este é, resumidamente, o retrato do Brasil captado pelo Censo Demográfico de 2010, cuja sinopse acaba de ser divulgada pelo IBGE. Não há, na essência, grandes mudanças no padrão demográfico do País nem alterações surpreendentes das reais condições de habitação, de educação e de renda da população. Mas o amplo quadro da situação dos brasileiros em 2010 traçado pela sinopse permite avaliar os avanços observados na década passada e também identificar as áreas em que o País pouco melhorou e que, por isso, devem continuar a merecer a atenção preferencial das políticas públicas.

É notável que, num país cuja população aumentava a um ritmo superior a 3% ao ano há poucas décadas, o crescimento tenha baixado, na década passada, para 1,17% ao ano, índice comparável ao dos países desenvolvidos. Na Região Sul, o aumento populacional médio foi de apenas 0,87% ao ano na década passada. As populações do Norte e do Centro-Oeste, no entanto, aumentaram mais do que a média nacional (2,09% e 1,91% ao ano), numa indicação de que os principais movimentos migratórios, que até a década de 1990 buscavam as grandes cidades do Sudeste e do Sul, agora se dirigem para os novos polos agroindustriais e para as cidades médias.

O Censo de 2010 constatou, pela primeira vez, que o porcentual das pessoas que se declararam brancas (a cor e a raça são atribuídas pelas pessoas ouvidas pelo IBGE) ficou abaixo de 50%. Em 2000, 53,7% da população se declarava branca; em 2010, o índice foi de 47,7%. Mais pessoas se declararam pretas (7,6%), pardas (43,1%), amarelas (1,1%) e índias (0,4%). Para demógrafos, é mais uma evidência do avanço da miscigenação no País.

A proporção da população feminina, que já era superior à masculina, aumentou na década passada. No Censo de 2000 havia, em média, 96,9 homens para 100 mulheres: em 2010, a relação se reduziu para 96 para 100. O que explica essa mudança é a maior longevidade das mulheres.

A urbanização alcançou em 2010 o maior índice da história: de acordo com o Censo, 84,4% dos brasileiros vivem nas cidades, índice maior do que o registrado nos Estados Unidos e muito superior ao observado na China e na Índia, onde a maioria das populações ainda vive no campo.

O Censo captou, também, que, embora tenha melhorado muito o padrão de vida dos brasileiros, a maioria das famílias ainda vive em condições difíceis ou precárias. De acordo com o IBGE, 60,7% da população vive em domicílios cuja renda familiar per capita é menor do que o salário mínimo (de R$ 510 na época do recenseamento). Quanto às condições de vida, o Censo captou um dado preocupante. Embora tenha aumentado o acesso da população a serviços de saneamento básico, o avanço observado na década de 2000 foi inferior ao observado na década anterior. Só 55,5% dos domicílios estão ligados à rede coletora de esgotos.

Quanto ao analfabetismo, embora em 2010, pela primeira vez, o índice tenha ficado abaixo de 10% (foi de 9,63% das pessoas com 15 anos ou mais), ele indica que quase 14 milhões de brasileiros adultos não sabem ler nem escrever. É um número alto.

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