Meta de inflação - decisão eleitoral

Pelo sétimo ano consecutivo, o Conselho Monetário Nacional (CMN) manteve em 4,5% a meta de inflação, agora para 2011. A decisão, tomada por um conselho formado por três pessoas - os ministros da Fazenda e do Planejamento e o presidente do Banco Central (BC) -, certamente foi inspirada mais por razões políticas do que técnicas, embora a Fazenda a considere pragmática.Para o ministro da Fazenda, a decisão levou em conta que, se na crise atual as expectativas para a inflação mundial são de acomodação, é difícil assegurar que novas pressões altistas não apareçam até 2011, o que é uma maneira de transferir para a conjuntura internacional a eventual responsabilidade por uma inflação maior, sem admitir que a política nacional pode ser a fonte principal.A meta fixada pelo CMN é bastante flexível, permitindo que a meta central esteja num intervalo entre 2,5% e 6,5%, e desde que a meta ficou fixada em 4,5% apenas em 2005 e em 2008 não foi respeitada. As condições atuais mudaram muito com a queda das taxas de juros e da Selic. Isso levou o BC a prever um IPCA de 4,1% para 2009 e de 3,9% para 2010.O "pragmatismo" mencionado levou o CMN a fixar, para 2011, uma meta superior à previsão de inflação de 2010. Tudo indica que se trata de uma "folga" para permitir que os "desenvolvimentistas" não sejam atrapalhados pela ortodoxia das autoridades monetárias. Os membros do CMN (pelo menos dois) estão cônscios de que a política fiscal laxista do atual governo terá efeito inflacionista em 2011, em seguida a um ano eleitoral em que não se pensa em austeridade. Será uma herança deixada pelo governo petista, que deste modo poderá pôr em risco os efeitos benéficos do Plano Real.Na realidade, a inflação brasileira, que parece razoável, depois de anos de hiperinflação, ainda é alta quando comparada com a de outros países. Sua resistência tem, a nosso ver, quatro fontes principais: a manutenção de um sistema de indexação que se transmite aos preços administrados; uma abertura insuficiente da economia; o peso da carga tributária, agravado pela falta de uma reforma competente do sistema fiscal, e por demais baseada nos impostos indiretos; e, finalmente, um excesso de gastos públicos, inclusive do INSS, o que explica, em grande parte, a resistência do governo a qualquer reforma.A decisão do CMN de manter a meta de inflação em 4,5%, no fundo, é um convite ao público para conviver com preços ainda muito elevados.

, O Estadao de S.Paulo

02 de julho de 2009 | 00h00

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