México - mudanças em curso

Entre as muitas razões que alteraram as expectativas dos investidores em relação ao Brasil, há, certamente, uma explicação bastante plausível que vem de fora: a virada que tem experimentado o México sob a administração do presidente Enrique Peña Nieto. Alguém poderia perguntar se o fato de o México estar passando por sensíveis modificações na área política e econômico-financeira justificaria uma mudança de foco. Por que razão investidores estrangeiros não poderiam manter os dois maiores países da América Latina em sua lista prioritária de investimentos?

Roberto Teixeira da Costa*, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2014 | 02h08

Vale a pena lembrar que, malgrado esforços para demonstrá-lo, não é apropriado colocar no mesmo balaio toda a chamada América Latina. Essa distorção ocorre há décadas. Sim, temos algumas características em comum de natureza geográfica que nos associam, mas há também e cada vez mais enormes fatores que nos distanciam, seja em termos de políticas adotadas ou na gestão prática da economia. Sem falar na língua: nós os entendemos, eles quase nunca!

De qualquer forma, sempre existiu, na visão dos investidores, uma comparação do desenvolvimento dos dois maiores países da região. As crises que nos atingiram em diferentes momentos sempre foram vistas de fora com a mesma abordagem analítica, e alternarmos os bons e maus momentos. No entanto, há que reconhecer que no momento os ventos sopram mais favoráveis para o norte da região!

Começaria mais uma vez a relembrar que a economia do México tem forte dependência da dos EUA. E como os americanos estão em processo de recuperação, isso será benéfico para os mexicanos. Sem falar na revolução energética com a queda dos preços. A perda de competitividade da economia mexicana para a chinesa, que deslocou algumas "maquiadoras" para o país asiático, tem mostrado reversão. Não só pela maior competitividade do seu programa econômico, como pelo aumento dos custos relativos na produção chinesa, cujos salários já não são os do passado. O sério problema do narcotráfico nem de longe está resolvido, mas, pelo visto, não afeta o ânimo dos investidores.

No que toca a acordos internacionais, em que lidera com o Chile o número de associações de livre-comércio, o México conta com uma rede de dez desses tratados com 45 países, 30 Acordos para a Promoção e Proteção Recíproca dos Investimentos e 9 de alcance limitado - Acordos de Complementação Econômica e Acordos de Alcance Parcial - no marco da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi).

Na região tivemos sucessivamente a formação da Aliança do Pacífico e sua rápida implementação. Com o México juntando-se ao próprio Chile, e com a presença da Colômbia e do Peru, a Aliança do Pacífico seguramente consolida forte presença no comércio regional internacional, pela expressão desses países no cenário mundial e também por maiores afinidades na gestão de suas políticas econômicas. O Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), que está completando 20 anos, poderá até ser expandido, induzindo outros países da região, apesar de seus resultados não serem o que se projetava.

Analisando o governo de Peña Nieto, que marcou a volta do Partido Revolucionário Institucional (PRI) ao poder, temos realizações importantes a destacar. Em primeiro lugar, um pacto político com diferentes partidos, principalmente o Partido da Ação Nacional (PAN), para tornar viável um programa de reformas. Algumas já se tornaram realidade após sua passagem e aprovação pelo Congresso, entre elas a reforma educacional, iniciada no governo anterior, de Felipe Calderón, e agora finalizada pela atual administração. E foi quebrado o poder dos sindicatos, um dos grandes obstáculos ao sistema de educação.

Não menos importante foi levar adiante a reforma energética, centrada em dois pilares básicos: a Comissão Federal de Eletricidade e a flexibilização do monopólio do petróleo - um tabu! -, que se manteve por muitos anos nas mãos da Pemex e era assunto intocável. O que vem ocorrendo no mundo, com sensíveis modificações no campo dos combustíveis fósseis, deve ter pesado. Apesar da difícil votação no Congresso, a realidade obrigou os mexicanos a fazer mudanças para explorarem o seu potencial petrolífero. O Atlantic Council, de Washington, comentando a reforma no setor de energia, concluiu que o México se posicionou para se tornar um grande ator no mercado global, como transparente e competitivo supridor de petróleo.

As projeções apresentadas indicam que até 2025 o México terá um crescimento anual de 2% do PIB, com estimativa de acréscimo de 2,5 milhões de empregos, baixo custo de energia e aumento de recursos para programas sociais, infraestrutura e educação. Apesar do crescimento mexicano, que neste ano mostrará também um pibinho, olhando a médio longo prazos sua posição competitiva na região tende a ampliar-se. E se aqui, no sul, não nos apressarmos, certamente os mexicanos consagrarão uma liderança regional.

Às vésperas de uma eleição presidencial e com nossos eleitores, em que pese o apoio à presidente, querendo mudanças, devemos analisar de perto o que acontece ao norte e tirar as lições cabíveis. Precisamos continuar a fazer reformas!

Ao final, em nota irônica, o governo do México mostra preocupação que o Brasil esteja exportando seu "know-how" em demonstrações de rua. Os mexicanos, às voltas com aumentos nas tarifas de transportes públicos, teriam recebido assessoria e "contribuições" do Movimento Passe Livre, que foi talvez o grande deflagrador das manifestações, principalmente em junho/julho, no País. Mas não me parece ser um segmento em que deveríamos exportar conhecimento.

*Roberto Teixeira da Costa é membro do Gacint-USP, foi um dos fundadores do Conselho de Empresários da América Latina (CEAL) e do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

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