Miguel Reale, 100 anos

Hoje meu pai completaria 100 anos. Morreu faz pouco mais de quatro anos, com quase 96. Escapou da velhice, tornou-se sábio. Após a morte de minha mãe, em 1999, passou a não mais desconversar a respeito da morte, consciente de que o tempo vivido, festejado ou sofrido impunha encarar com tranquilidade o mistério da finitude.

Miguel Reale Júnior, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2010 | 00h00

Acaba de ser lançado livro intitulado Variações 3, que reúne os artigos publicados nesta página de 2004 a 2006. É da leitura desses trabalhos que defluem as principais preocupações do seu final de vida. A morte de Norberto Bobbio atingiu-o não apenas pela amizade e pela admiração intelectual, mas em face da carta-testamento que este deixara para ser lida em sua câmara ardente. Nessa carta, Bobbio diz crer que após a morte sobrevém a escuridão, mas reconhece "como homem de razão e não de fé estar mergulhado no mistério que a razão não consegue penetrar em profundidade e as várias religiões interpretam de vários modos".

Meu pai reflete esse convite de Bobbio a se envolver no mistério da morte que a razão não explica e suscita a necessidade de harmonizar a busca das verdades eternas com a perquirição racional. A seu ver, apenas a fé supera os ditames da razão como substância das coisas esperadas e argumento das não aparentes. Indaga, então: como se tem ou não fé?

Responde que a fé é, para uns, o que resta uma vez superada a expectativa de soluções a partir da experiência, enquanto, para outros, seria um dom, uma dádiva divina, uma revelação. Para ele, a fé pertence ao domínio do não racional e sim do razoável, do que é plausível, sendo, portanto, uma conjetura necessária e inevitável.

Com o olhar da sabedoria construída pelo tempo vivido na análise das contingências humanas, conclui que a fé é um ato existencial a depender da pessoa que se é e da idade que se tem. Em seguida pondera com experiência: "Quando se é jovem prevalece o sentido da vida em sua imanência, mas à medida que o tempo passa atenua-se a preferência pelo agnosticismo e volta-se a atenção pelo que se oculta nas sombras do mistério." Conclui meu pai: "Quem tem fé não tem temor da morte e a vida é uma passagem para uma misteriosa forma de viver, sem corporeidade", não explicada pela razão, mas com esta compatível. No âmbito do mistério, e não do saber, alargam-se os horizontes da razão, não mais presa a limites intransponíveis, para prevalecer o campo do plausível, onde se crê por ser absurdo não crer. Ademais, a crença numa vida sem corporeidade ajuda a viver e traz paz de espírito.

Repercute, no entanto, no plano das relações intersubjetivas a compreensão da vida espiritual como resposta à insaciável agonia de procura de uma verdade sobre a existência além do demonstrado pela razão científica. Meu pai, sempre voltado para o real, o concreto e o experienciável, tira desta compreensão mística da vida consequências acerca de duas questões fundamentais das relações em sociedade: o exercício da caridade e da justiça sob uma perspectiva humanística.

A caridade não é, então, uma prática que se desvincule desta visão mística, pois, a seu ver, os atos de solidariedade realizam-se, na verdade, "em consonância com valor supremo, ao qual devemos nos sujeitar para regular nosso comportamento a um plano transcendente ao qual não se tem acesso somente com os poderes da razão".

Neste mundo, caracterizado pela fratura entre uma minoria que tem tudo, para a qual não há diferença entre o supérfluo e o necessário, e uma gigantesca massa excluída de qualquer bem, é preciso olhar os pobres carecedores de alimento e de moradia.

Assim, apenas se alcançará a justiça social graças ao exercício da virtude da alteridade, que vê o outro para prestar auxílio como um imperativo intersubjetivo a obrigar a todos a colaborar com os necessitados. A caridade não deve consistir, tão só, num ato de solidariedade que satisfaça as consciências individuais. A caridade, ao comprometer todos os detentores de autossuficiência, alcança dimensão social e consolida a democracia, que deixa de ser uma forma postiça de igualdade.

Conclui, então, que a queda do Muro de Berlim não pode significar a perda do horizonte de uma real justiça social, a ser construída a partir do exercício da virtude da alteridade, pois, a seu ver, a crise do capitalismo não é econômica, mas ética. Quando se estabelecer uma harmonia com base na solidariedade, poder-se-á encontrar uma solução social e política que atenda às aspirações de cada um e de todos.

Imbricada no exercício da caridade está a justiça, pois esta só se alcança se reinar a caridade existencial. O anseio de justiça sempre revela um sentimento de carência, ou seja, daquilo que falta ao indivíduo e à coletividade para que ambos se realizem na plenitude de seus valores éticos e existenciais.

Assim, a visão humanística e espiritual termina por levar à busca da realização de um ideal ético, ou seja, a construção de harmônica paz social. Este, segundo ele, o objetivo a ser perseguido pela política, cabendo ao Estado promover a realização do justo, bem como traçar um sistema de liberdade e de igualdade para a comunidade.

Dominado por esta profunda compreensão humanística, meu pai considera como valor maior a pessoa humana. Ao eleger a pessoa humana como fonte de todos os valores, dela defluindo os valores da liberdade espiritual e da justiça, não poderia deixar de crer num significado depois da morte, mesmo porque o reconhecimento da dignidade da pessoa humana não se compadece com a morte sendo o nada ou a escuridão.

Destarte, este é o maior legado por ele deixado: a crença na grandeza da pessoa humana e a revelação da crença na existência sem corporeidade, que nos faz com alegria lembrar, no seu centenário, não a sua morte, mas a sua vida repleta de ensinamentos.

ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, FOI MINISTRO DA JUSTIÇA

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