Milhões disputados a bala

A véspera do "Dia Nacional de Lutas" começou com uma manifestação violenta: a oposição do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo bloqueou 16 terminais de transporte coletivo e impediu milhares de trabalhadores de outras categorias de se deslocarem para o trabalho. E terminou com um tiroteio, à noite, entre chapas rivais na sede do sindicato, em que três pessoas foram baleadas e outras cinco foram feridas por estilhaços dos vidros quebrados pelos tiros.

O Estado de S.Paulo

12 Julho 2013 | 02h08

Infelizmente, nada disso é novidade. O fato de São Paulo não dispor de uma malha de trilhos de metrô e trens suburbanos suficiente para transportar a população dá um enorme poder de chantagem às categorias de motoristas e cobradores de ônibus. Conduzidos por dirigentes sindicais ambiciosos, eles não se constrangem em cruzar os braços e bloquear terminais, interferindo de forma lesiva na rotina dos passageiros e travando o trânsito normalmente complicado da metrópole. A imagem dos grevistas disputando peladas de futebol entre ônibus parados nos terminais revela o deboche e a indiferença desses sindicalistas diante do sacrifício de quem teve de fazer longos percursos a pé e do resto da cidade que eles paralisaram.

Também não é incomum recorrer à bala para resolver desavenças entre grupos que disputam o comando da categoria, levando a violência do movimento além do desforço físico dos piquetes empregados para impedir que fura-greves amenizem a chantagem. O tiroteio da Rua Pirapitingui, na Liberdade, foi o ápice de uma guerra entre ex-aliados que se tornaram inimigos figadais na luta pelo controle de um caixa milionário.

Isao Hosogi, candidato à reeleição, preside o sindicato desde 2004 e agora está sendo acusado pelos adversários de desviar R$ 500 mil por mês de contratos de planos de saúde da categoria, da compra de cestas básicas para funcionários e de convênios com empresas, entre as quais farmácias. Em seu protesto, a oposição distribuiu fotos de supostas casas de praia de Hosogi, "Jorginho", em Ilhabela e Itanhaém, além de outros imóveis, parte de um patrimônio por eles calculado em mais de R$ 16 milhões. E a situação acusa os oposicionistas de terem "ficha-suja" na polícia.

De fato, quem acusa pode até ter conhecimento de causa, mas também é suspeito de culpa no cartório. O cabeça da chapa de oposição, Valdevan Noventa, foi diretor de Finanças da atual gestão e era considerado o braço direito do presidente até cinco meses atrás, quando romperam. Ele foi investigado por suspeita de lavar dinheiro para o tráfico de Paraisópolis em lotações de Taboão. O candidato a vice em sua chapa foi Edvaldo Santiago, de quem Hosogi era "afilhado" antes: ele liderou a maior greve de ônibus da história de São Paulo, quando era presidente, em 1992.

A redução do poder de chantagem da categoria sobre os usuários depende de soluções estruturais inalcançáveis a curto prazo. A mais importante seria a substituição paulatina das linhas de ônibus pelo aumento dos quilômetros da área urbana cobertos por metrô e trens suburbanos. Pelo andar da carruagem, contudo, isso pode ser adiado para as calendas gregas.

Mas o clima de violência reinante nas cúpulas sindicais da categoria pode ser atenuado se, em primeiro lugar, a polícia der aos infratores da lei o tratamento que dispensa a reles bandidos, pois é isso que são. E, depois, se os legisladores puserem fim a privilégios que, desde o Estado Novo, transformam os pelegos numa casta de privilegiados intocáveis. Para tanto urge extinguir o direito à reeleição permanente das direções de sindicatos, federações, confederações e centrais sindicais. E, sobretudo, submeter as contabilidades dessas entidades a um rigoroso controle fiscal. Afinal, elas são alimentadas pelo imposto sindical - um dia de trabalho de cada trabalhador, seja ele sindicalizado ou não - que engordou seus caixas em R$ 1,4 bilhão no ano passado, sem que sequer tenham de prestar contas pelo uso desse dinheiro.

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