Militares candidatos

Trata-se de uma opção democrática e legalmente apoiada na Constituição de 1988

*RÔMULO BINI PEREIRA, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 03h00

Envolto em persistente crise política, econômica e social, sem precedentes, o Brasil terá em outubro mais uma eleição geral, com inúmeros pré-candidatos de diversas posturas políticas e ideológicas. Nestes 30 anos da Nova República, eis que surge no cenário eleitoral, pela primeira vez, um candidato à Presidência oriundo do meio militar, que, de modo surpreendente, atinge e mantém índices significativos nas pesquisas eleitorais. Trata-se do deputado federal Jair Bolsonaro, capitão da reserva do Exército Brasileiro. Para os opositores dessa candidatura, o resultado das pesquisas é um fato que deve ser combatido com críticas de toda ordem, por representar, segundo eles, um verdadeiro perigo de retorno ao regime militar.

Tornou-se corriqueiro nos últimos anos culpar o regime militar como sendo o grande responsável pelas constantes crises e pelos desacertos políticos e sociais. Criou-se uma imagem de escuridão e malignidade em tudo o que se referia ao regime, com uma incidência ideológica das esquerdas brasileiras em artigos a esse respeito, como ainda agora, denegrindo presidentes militares com base em documento de agência estrangeira (CIA) relativo a fatos supostamente ocorridos há mais de 40 anos. O interessante é que tal agência sempre foi considerada o “grande satã” pelas esquerdas sul-americanas. Hoje esse “oportuno memorando” se tornou de alta e inquestionável credibilidade. Uma evolução surpreendente! 

Os fatos positivos do período, tais como a modernização do País e conquistas sociais de relevância, raramente são assinalados, muito menos as virtudes e os predicados morais que os governos militares apresentaram em suas gestões: a honestidade, a probidade, a responsabilidade no trato da coisa pública, a grandeza de pôr os interesses do País em primeiro plano e a inadmissibilidade de atos de corrupção em todos níveis governamentais.

Dentre as razões da aceitação de Bolsonaro por parte da população, sobressai a sua integridade pessoal, observada na longa vida parlamentar sem nenhuma mancha ligada a corrupção. De seus opositores, inúmeros estão envolvidos nessa corrupção desenfreada que se alastra pelo Brasil, e há até os que atuaram na luta armada fratricida. Estes, sob a capa de luta pela “democracia”, desejam solertemente a instalação de regimes bolivarianos. Aliados a esses opositores há artistas e intelectuais, bem como políticos receosos de perder as benesses que lhes proporciona o status quo da vida política atual.

Em data recente, cerca de 70 militares pré-candidatos a cargos eletivos em todo o País se reuniram em Brasília e adotaram como lema de suas campanhas: “Ética, Moral e Honestidade”. Possíveis atitudes radicais em nenhum momento foram postas em discussão e todos eles optaram por sua inclusão democrática no processo eletivo, que já começou.

O próprio comandante do Exército – por incontáveis vezes – já declarou a predominância dos princípios da Constituição nas soluções políticas de problemas nacionais. Em seus pronunciamentos não existe uma assertiva sequer de adoção de medidas manu militari ou o apoio a crescentes clamores intervencionistas.

Destarte, desejar relacionar candidaturas militares, principalmente a de Bolsonaro, a um possível retorno ao regime militar é, ao mesmo tempo, uma falácia e uma leviandade. Um verdadeiro fantasma criado sub-repticiamente.

Por oportuno, cito o recente artigo publicado nesta página do Estado, edição de 5 maio, intitulado Volta à ditadura pelo voto, de autoria do jurista dr. Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça, quando expressa a sua opinião a respeito da candidatura de Bolsonaro. O articulista assegura que ela representaria um retorno dos militares ao poder. Com a devida vênia, discordo dessa afirmativa. Nos preâmbulos deste artigo apresento as minhas razões de discordância daqueles que consideram a candidatura de Bolsonaro um perigo para o regime democrático e, complementando, digo que ela representa, além de outros motivos, um protesto do povo contra os governos incompetentes e corruptos das três últimas décadas.

Como ex-ministro da Justiça, o dr. Reale sabe muito bem o que os militares têm representado para a solução de problemas de toda ordem, nos quais a ação governamental se mostra incapaz. No presente, cumprem duas missões relevantes: uma, humanitária, em Roraima, no acolhimento dos refugiados oriundos da bolivariana Venezuela, e outra na intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, no setor de Segurança. Na Nova República o grande objetivo foi servir ao País, o que lhes tem dado uma credibilidade ímpar perante a opinião pública.

Ainda em seu artigo, o dr. Reale – como a profetizar um terror futuro e alertar os que ele denominou “ignorantes” do que foi o regime militar –, ressalta a sua participação na presidência da Comissão de Mortos e Desaparecidos. Sem dúvida, uma ação de alto grau humanitário, mas que deu origem à polêmica Comissão da Verdade por sua forma unilateral de interpretar fatos históricos. Foi uma comissão de verdade única e ideologicamente comprometida, que proporcionou milhares de beneficiários de pensões vitalícias e polpudos proveitos a bancas advocatícias. A ideologia esquerdista, com isso, foi para as calendas.

Correndo o risco de ser ousado, talvez seja mais válido voltar sua inteligência e seu notório saber jurídico, como no impeachment de Dilma Rousseff, para o nosso débil sistema democrático, no qual os três Poderes da República estão desacreditados pela população brasileira. Este, sim, um fato real.

Por fim, espero que o eminente jurista compreenda e aceite as candidaturas de militares, incluída a de Jair Bolsonaro, como uma opção democrática e legalmente apoiada na Constituição de 1988.

*GENERAL DE EXÉRCITO R/1, FOI CHEFE DO ESTADO-MAIOR DO MINISTÉRIO DA DEFESA

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