Modernidade ilusória

O Brasil tem paixão por projetos que nos remetam sem escala à modernidade que invejamos nos países desenvolvidos. Uma modernidade materializada em coisas que só de serem imaginadas já nos fazem sentir como se tivéssemos alcançado uma etapa superior de nosso desenvolvimento. Brasília foi isso: uma cidade modernista rasgada no meio do nada. Dinheirão gasto num país em que à época 50% das pessoas eram analfabetas.

Sergio Fausto, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2010 | 00h00

Agora se fala no trem-bala, cujo edital foi lançado em clima de comício eleitoral faz poucos dias. Levitará sobre os trilhos? Correrá a 300 km por hora, Vale do Paraíba afora? Ainda não se sabe, pois nem sequer o traçado da ferrovia está definido, muito menos o custo da obra, que poderá superar os R$ 31 bilhões hoje estimados. Uma coisa, porém, é certa: muitos recursos públicos serão consumidos, na forma de aportes de capital e financiamento subsidiado ao consórcio vencedor do leilão marcado para dezembro próximo.

Por trás da paixão por projetos vistosos há sempre muitos interesses. O trem-bala não foge à regra. Com tamanha disposição estatal, grandes companhias nacionais e estrangeiras movimentam-se em torno do projeto, apesar de todas as incertezas sobre a sua viabilidade econômico-financeira.

O Brasil não é mais um país com 50% de analfabetos (o porcentual reduziu-se para cerca de 10%). A qualidade da educação, porém, é sofrível. Vem melhorando, mas ao rimo de trenzinho caipira, como indicam os últimos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). É verdade que entre 2005 e 2009 cresceu a pontuação dos alunos das escolas públicas nas provas de Português e Matemática: significativamente nas séries iniciais, pouco nas séries finais do ensino fundamental e nada ou quase nada no ensino médio. Tomara que a tendência observada nas séries iniciais se acelere e se estenda às demais. Agora, nesse ritmo, quando tempo levará para que os alunos brasileiros saibam realmente interpretar e redigir textos e usar a Matemática com competência?

Hoje eles estão longe disso. É o que revelam os dados do Programme for International Student Assessment (Pisa), cujos testes são aplicados no Brasil. O último, de 2006, mostra que mais de 70% dos alunos com 15 anos de idade nem sequer dominam os conhecimentos básicos em Matemática, 61% estão abaixo do nível mínimo aceitável em Ciências e 55% não vão além de uma leitura mecânica de textos. Enorme é a distância que os separa dos estudantes da mesma idade nos países desenvolvidos, quer se compare o porcentual de alunos nos níveis mais baixos ou nos níveis mais altos da escala de avaliação utilizada pelo programa. Tome-se Matemática, por exemplo, área na qual menos de 1% dos alunos brasileiros atingiu níveis de excelência. Nos países desenvolvidos o porcentual supera os 10%. Tal quadro não se alterou desde que os testes do Pisa passaram a ser aplicados no Brasil, em 2000.

Ou seja, quem precisa tomar um trem-bala é a educação brasileira. E o embarque já está muito atrasado.

Quando Brasília foi construída, crianças e jovens até 14 anos representavam 40% da população brasileira. A partir dos anos 70, com a diminuição do número de nascimentos e o prolongamento do tempo de vida, a pirâmide etária começou a adquirir nova forma: a base (população entre 0 e 14 anos) passou a diminuir e o meio (população entre 15 e 59 anos) a se alargar, sem, no entanto, ocorrer alteração significativa no vértice (população acima de 60 anos). Veio crescendo desde então o número de adultos em idade ativa (não suficientemente escolarizados) em comparação com o de crianças e idosos, reduzindo o que o jargão técnico denomina "relação de dependência".

Chama-se "janela de oportunidade demográfica" o período em que essa relação, que foi alta enquanto a sociedade era "jovem", se mantém baixa, antes de voltar a subir, quando a sociedade se torna "velha". Quanto à composição etária, dizem os especialistas, esse é o período em que o potencial produtivo da sociedade se encontra no auge. No Brasil, estima-se que a tal "janela de oportunidade demográfica" se fechará em 2030. Quão mais alto o nível de educação da sociedade nesse auge demográfico, que não se repetirá no futuro, maiores as chances de dar um salto em matéria de desenvolvimento.

Na educação brasileira sobram deficiências. Destaco uma delas, pela conexão estreita que tem com o desenvolvimento tecnológico, que o trem-bala nos sugere. Faltam professores especialistas para ensinar Matemática, Física e Química, as chamadas "ciências duras". A esse respeito chamam a atenção os dados do último Censo Escolar do Ministério da Educação. Eles mostram que, dos 448 mil professores do ensino médio da rede pública, apenas 22% têm formação superior nessas áreas, ao passo que 60% têm diploma universitário nas áreas de humanas. Esse desequilíbrio aponta para um déficit significativo de professores especialistas em "ciências duras" no ensino médio. Sem falar na questão da qualidade.

É uma realidade quase invisível, mas que cobra um preço alto ao País. Um de seus reflexos aparece nas estatísticas sobre a formação de engenheiros no ensino superior. Formamos cerca de 30 mil deles anualmente. A China forma mais de 600 mil e a Índia, cerca de 300 mil. Pergunto como vamos responder ao desafio de dotar o País de uma infraestrutura moderna e tornar realidade o nosso potencial de crescimento futuro, se não formarmos na qualidade e na quantidade necessárias os profissionais para tanto.

Questões como essa - que começam a ser respondidas nas salas de aula do ensino básico da rede pública - não mobilizam tanta paixão no Brasil. Afinal, quem se interessa pelo árduo esforço de aprendizado e pelo sucesso de milhões de alunos da rede pública? Bom mesmo é viajar num trem-bala movido a recursos públicos, ao lado de gente bem vestida, no eixo Rio-São Paulo!

DIRETOR EXECUTIVO DO IFHC, É MEMBRO DO GACINT-USP E-MAIL: SFAUSTO40@HOTMAIL.COM

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