Morte de criança abre os olhos para realidades

Há poucos dias um ônibus escolar que transportava sete crianças para a escola em Aragarças (GO) se incendiou, explodiu, matou uma delas, de 5 anos, e produziu queimaduras nas outras seis. A tragédia só não foi ainda maior porque uma pessoa das proximidades ajudou as seis a deixar o veículo em chamas, que não tinha vistoria atualizada. É mais um episódio que faz refletir sobre a questão do ensino nas zonas rurais, várias vezes já comentado neste espaço. E de suas implicações nas políticas nacionais.

Washington Novaes *, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2013 | 02h06

As estatísticas dizem que ainda temos uns 15% da população, cerca de 30 milhões de pessoas, vivendo na zona rural (às quais devem ser somadas outras que só trabalham no espaço rural, mas vivem nas cidades). De qualquer forma, serão alguns milhões de crianças que vivem no campo e hoje são obrigadas a se deslocar diariamente para escolas nas cidades, porque a quase totalidade dos estabelecimentos rurais foi fechada, sob muitas alegações contestáveis - a de que o número de alunos por classe é diminuto, porque há resistência dos professores, porque os custos são mais altos, etc. E ainda porque crianças e adolescentes prefeririam ir para as cidades, para terem mais contato com tecnologias e modos urbanos de viver. Mas isso já foi negado por pesquisas, em que esses alunos dizem gastar várias horas mais por dia (no trajeto motorizado de ida e volta), saber que no futuro terão dificuldade de conseguir empregos urbanos e preferir os espaços mais amplos e modos de vida mais agradáveis na roça. A razão real é que os Poderes estaduais e municipais preferem o ensino nas cidades, que lhes dá menos problemas com professores e custos.

Esse caminho implica muitas consequências. A primeira é a de que se renuncia a um ensino apropriado para o ambiente rural, suas condições, vantagens e questões a resolver. É preciso lembrar que a imensa maioria desses alunos descende de pessoas que trabalham na agricultura familiar (responsável por 70% dos alimentos para o mercado interno) - portanto, não terão escolas que tratem do que é específico nesses espaços. Essas famílias já enfrentam a questão de só disporem de uns 10% dos financiamentos e créditos no País - 90% vão para a agricultura de exportação (principalmente soja e milho) -, assim como têm pela frente o problema do minifúndio, dada a concentração na propriedade da terra nas culturas voltadas para o exterior. Este último tipo de atividade gera ainda o problema do contato com agrotóxicos e insumos químicos, dos quais o Brasil é o maior consumidor no mundo (US$ 8,6 milhões em um ano, cerca de 3,5 kg por hectare/ano, 20% do total mundial). São 124 inseticidas, fungicidas, acaricidas, formicidas, com mais de 400 ingredientes ativos e 2.500 fórmulas; 24 substâncias usadas aqui já foram banidas nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa e em parte da Ásia; no País, só duas.

Esses rumos implicam também contribuição para o "inchaço" das zonas urbanas (e vários problemas nestas, inclusive de trabalho e renda para migrantes). E perdas na área da alimentação interna - como tem ocorrido ultimamente com o feijão, o produto mais consumido pelas faixas de menor renda, e até com a mandioca, a espécie mais adequada para solos brasileiros, pois não exige defensivos nem fertilizantes na maior parte do território. Trata-se de alimento altamente nutritivo, como revela o caso da campeã mundial de natação Poliana Okimoto, que substituiu muitos itens em sua dieta (glúten, açúcar, abacaxi, fermento, chocolate e até feijão, conforme comentário neste espaço em 2/8) por mandioca e derivados. A mandioca é tão importante que a própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) lançou campanha para transformá-la no "alimento do século 21", com aumento de 400% no consumo em mais de cem países, por ser rica em carboidratos, calorias e proteínas.

Mas no geral, por aqui, continuamos a desprezá-la. E a tratar como de segunda categoria os espaços da agricultura familiar, seu hábitat principal. Da mesma forma que desprezamos outras possibilidades dessas áreas, para as quais tem chamado a atenção com frequência o respeitado professor Ignacy Sachs, consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), da FAO e de outras instituições. Sachs lembra sempre que o espaço rural não precisa ser sinônimo apenas de agricultura e que esta não se limita a grãos. É um espaço que também pode ser utilizado na produção de várias matérias-primas para muitos ramos industriais. Ou para a produção de biomassas (cana-de-açúcar, pinhão manso, mamona, dendê e outras), indispensáveis para a geração de energias renováveis - este é um setor fundamental, porque o problema da emissão de poluentes que contribuem para mudanças climáticas assim o pede. Ou ainda para a produção de madeiras e celulose a partir do plantio de espécies adequadas - pelas mesmas razões.

São ainda nichos importantes para enfrentar a crise de polinizadores, como abelhas, cujo trabalho de fertilização de espécies tem seu valor avaliado no mundo em R$ 54 bilhões anuais. Mas elas estão sendo dizimadas por pesticidas e fungicidas. Só nos Estados Unidos já se perderam 10 milhões de colmeias. Um terço de todos os alimentos são polinizados por abelhas. E no Brasil ainda há 150 espécies nativas - também ameaçadas.

Enfim, a morte brutal de uma criança em Goiás abre sendas para discussões imensas sobre nossas questões populacionais e espaciais, sobre a ocupação das zonas rurais e urbanas, sobre a questão dos alimentos, de insumos no campo, possibilidades modernas na área de energias e materiais desprezadas no campo por nossas políticas oficiais. Temos de abrir os olhos para dramas já reais e para o futuro. Não podemos continuar presos a imediatismos, favorecimentos setoriais, com desprezo de outros caminhos mais profícuos. Nem perder tempo.

*Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br.

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