Motos merecem mais atenção

Antes, os motociclistas - em especial os profissionais (motoboys) -, cujo número não para de crescer, tanto nas grandes como nas pequenas cidades de todo o País, eram motivo de preocupação principalmente por causa do excesso de velocidade e das manobras perigosas, responsáveis por elevado número de acidentes. Agora, uma pesquisa feita pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo mostra que o problema, pelo menos na capital paulista, é ainda mais grave, por várias razões.

O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2013 | 02h14

Por meio da análise dos dados relativos a 326 acidentes ocorridos entre os meses de fevereiro e maio deste ano na zona oeste da cidade, onde se situa o HC - e tudo indica que a situação seja muito parecida nas demais -, constatou-se que pouco mais de 20% das vítimas haviam consumido álcool (7,1%) ou alguma droga ilícita (14,2%), sendo maconha e cocaína as mais comuns. É uma porcentagem muito alta, que justifica o comentário da responsável pela pesquisa, a professora Júlia Greve, da Faculdade de Medicina da USP: "É assustadora a quantidade de álcool entre as vítimas. Também chama a atenção o uso de cocaína como agente estimulante. Isso ajuda a explicar a epidemia de acidentes com motos na cidade".

O que torna o caso ainda mais grave é que, como ela também constatou, os motociclistas confirmaram o uso daquelas substâncias, numa demonstração de que não veem isso como um fator de risco para acidentes. Donde se conclui que sua tendência é continuar a usá-las.

Outro dado inquietador - que mostra ao mesmo tempo a falta de fiscalização e a indiferença dos motociclistas com relação a obrigações elementares de todo condutor de veículo - é a também elevada porcentagem dos que dirigem sem carteira de habilitação - nada menos que 23%. Um problema considerado "gravíssimo" por Dirceu Rodrigues Alves Junior, chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Associação Brasileira de Medina de Tráfego, tendo em vista o tamanho da frota de motocicletas da cidade.

Ela praticamente dobrou em São Paulo nos últimos sete anos, passando de 490.754, em 2005, para 962.239 em 2012. O número de acidentes cresceu 35% no mesmo período e o de motociclistas mortos, 27%. As mesmas tendências se observam em todo o País. O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) calcula que o número de motos no Brasil quadruplicou em uma década, saltando de 5 milhões para 20 milhões. Elas já representam 27% da frota nacional de veículos, o que se explica pelo fato de a moto ser um meio de transporte barato e rápido, que pode circular entre os carros nas cidades, evitando os congestionamentos. Quanto aos acidentes, em 2010 o total de mortos no País foi de 40.989, dos quais 13.452 (32,81%) eram motociclistas.

Os números mostram as dimensões e a gravidade do problema, que continua a ser tratado pelas autoridades com a displicência que se sabe. As elevadas porcentagens tanto de motociclistas que dirigem sob o efeito de álcool como sem carteira de habilitação só se explicam pela deficiência da fiscalização, quando não pela sua ausência pura e simples.

A fiscalização do cumprimento da Lei Seca, por exemplo, está quase só voltada para os carros e caminhões. Nas operações que se realizam periodicamente com esse objetivo, nas cidades e nas estradas, o alvo são sempre os motoristas daqueles veículos. As motocicletas estão longe de receber atenção proporcional à sua posição na frota de veículo e ao número de acidentes em que se envolvem. O mesmo pode ser dito quanto à documentação, em especial a carteira de habilitação.

Na capital paulista, onde foi feita a pesquisa que levantou os dados assustadores sobre álcool e drogas, a situação estaria muito melhor se os motociclistas recebessem metade da atenção dedicada pela fiscalização - por agentes e equipamentos sofisticados - aos motoristas de carro. Atenção que, não por acaso, resulta na arrecadação de milhões para os cofres da Prefeitura.

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